“Comida caseira” em Okinawa: shokudō

– É ali, ó. Aquela porta. Será que tá aberto hoje?

– Parece que tá. Olha, tem gente lá dentro.

A porta não é automática. Abrimos, e entramos. Ninguém gritou: “irasshaimase”, como nos restaurantes, bares e lojas convencionais. Lá de fora não dá pra ver, mas quase todas as (poucas) mesas estão ocupadas. Sentamos na única mesa vazia e olhamos o menu exposto na parede – cada prato escrito em um pedaço de papel com seu respectivo preço, que varia entre 400 e 1000 yen.

O que pedir? São mais de 10 opções. Há os pratos típicos de Okinawa, os “chanpuru” (mistura) como goyá chanpuru, tofu chanpuru e somen chanpuru. Claro, também tem Okinawa sobá. E vários tipos de teishoku (refeição com arroz, misoshiru e o prato principal), de peixe ou frango. E também kare raisu (arroz com curry) e omuraisu (omelete com arroz). E, por fim, C ranchi, B ranchi e o A ranchi, para os mais famintos. “Ranchi” é a versão em katakana para “lunch”. Pelo nome, pode ser qualquer coisa, mas geralmente é um teishoku especial, com frituras, como tenpurá, hamburger etc.

Logo, vem uma senhora de uns 60 anos e pergunta se já decidimos. Sim; pedimos goyá chanpuru e Okinawa sobá. Ela não anota o pedido e volta para a cozinha, exposta atrás do balcão. Aqui, o chá gelado é self service. Os copos de plástico estão ali empilhados e o galão está cheio de chá meio aguado. Nos servimos e esperamos sentados olhando para os outros clientes.

É dia de semana, duas da tarde. Observamos o ambiente. Há mesas no chão (com cadeiras) e mesas baixinhas no tatami (sem cadeiras), onde estamos sentados. O lugar tem mais de 40 anos, as paredes da cozinha levam as marcas do tempo e da gordura. Há alguns quadros antigos e pôsteres de eventos. Perto do balcão, há uma TV. Em frente, há uma senhora, comendo sozinha seu teishoku enquanto assiste a propaganda de produtos para emagrecer. Na outra mesa, há dois homens de meia idade que parecem trabalhar na construção civil. Não conversam e comem rápido o que parece ser um A ranchi. Na outra mesa, a mais barulhenta, há 5 estudantes de uns 15 anos mais ou menos. Conversam bastante e comem kare e sobá, as opções mais baratas, mas não menos volumosas.

Logo, vem a comida. O goyá chanpuru é acompanhado de misoshiru (sopa) e arroz. O Okinawa sobá vem quase transbordando da tigela, com a carne de porco e a cebolinha em cima, soltando um cheirinho bom. Em ambos os pratos, a quantidade é generosa. O gosto é difícil de descrever; eu diria que é “simples”. Parece sem grandes segredos, mas se eu fizer não vai ficar igual. É como a comida da obá (avó). Sem sofisticação, mas é saborosa, uma receita aprendida há muito tempo atrás, numa época difícil, utilizando os ingredientes que tinham à mão.

Terminamos de comer e vamos até o balcão, pagar a conta: 1000 yen, pelos dois pratos e a barriga cheia até a hora da janta. Agradecemos; a senhora também agradece. Saímos do aconchego e sentimos o ar fresco do inverno de Okinawa, pensando em qual shokudō será nossa próxima visita.

Fachada do Hanagasa shokudo

Fachada do Hanagasa shokudō

Chá e água - Yanbaru shokudo

Chá e água – Yanbaru shokudō

Balcão e cozinha - Mikasa shokudo

Balcão e cozinha – Mikasa shokudō

Goyá chanpuru - Jun

Goyá chanpuru – Jun


“Shokudō” (食堂) significa “refeitório”, “restaurante” em japonês. O ambiente é familiar, simples. O preço é barato e a comida é em grande quantidade. Para mim, a comida é algo próximo a uma “comida caseira”. Okinawa possui muitos shokudō com mais de 40 anos, e estamos tentando visitar a maior quantidade possível deles.

O texto acima é baseado em visitas a vários estabelecimentos, tentando transmitir ao leitor a sensação de conhecer o que é, na minha opinião, um dos valiosos patrimônios de Okinawa.

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