Koza e os 27 anos de ocupação americana

Ontem, dia 15 de maio, completaram-se 43 anos da Reversão de Okinawa ao Japão. Ou seja, Okinawa foi “devolvida” ao Japão após 27 anos de ocupação norte-americana, que começou logo após o término da II Guerra. A presença dos Estados Unidos, porém, ainda persiste na forma de bases militares, que ocupam cerca de 18% do território de Okinawa.

Para relembrar a data, fiquei pensando sobre o que escrever. E um turbilhão de temas, de fatos, de imagens passou pela minha mente: o kankara sanshin (sanshin feito de lata), o meu oji pedindo chiclete pros americanos, o uso do dólar, os bares americanos, a Jane Fonda, os soldados marcados pela Guerra do Vietnã, os acidentes, os estupros, os inúmeros protestos… É… Não tem jeito, acho que é a palavra turbilhão que define mesmo essa época. Um turbilhão de transformações que distanciariam e, ao mesmo tempo, aproximariam Okinawa do Japão.

De qualquer forma, a ocupação americana deixou muitas marcas na cultura okinawana e em sua paisagem. Um dos lugares representativos desse passado é Koza. Koza já foi chamada de Goeku e hoje faz parte de Okinawa-shi (“cidade de Okinawa”, diferente de “província de Okinawa”). Apesar das mudanças de nome ao longo do tempo, vou usar o nome “Koza”.

1970 - Koza

1970 – Koza

2014 - clube em Koza

2014 – Koza

Da primeira vez que fui à Okinawa, morei durantes 3 meses em Koza. E foi impactante perceber como era tudo tão, tão diferente do que eu havia imaginado. Não encontrei uma Okinawa paradisíaca, sanshin, flores e casas tradicionais, mas me deparei com lojas muito velhas com letreiros em inglês, noites cheias de soldados americanos e dias com senhores okinawanos dormindo bêbados na rua.

Mas foi a partir dali que comecei a enxergar melhor também um outro lado de Okinawa – o lado champuru (algo como “misturado”, em uchinaaguchi) e sua encantadora complexidade. Pois é justamente em Koza que isso fica mais evidente.

Antes da Guerra, a região era pouco urbanizada e coberta por plantações. As mudanças começaram quando os soldados americanos desembarcaram na ilha e o aeroporto militar japonês, ali perto, foi dominado pelos EUA, tornando-se a conhecida Kadena Air Base, que existe até hoje e é considerada a maior base militar norte-americana da Ásia. Com o passar dos anos, instalações militares foram sendo construídas, e moradores de diversas partes foram em busca de emprego na região.

Foi nessa época que os norte-americanos trocaram o nome de Goeku para Koza, nome provavelmente derivado de Koja e Goya, bairros dessa região. Por estar ao lado da Kadena Air Base, Koza desenvolveu-se rapidamente, tornando-se a 2ª cidade mais populosa e a maior da região central da ilha. Ali, soldados norte-americanos e suas famílias conviviam com os okinawanos, mas não sem conflitos. Koza ficou conhecida como a “cidade da base”.

koza riot1-2

1970 – Koza Riot (Motim de Koza), no qual okinawanos queimaram mais de 80 carros americanos

1971 - Reunião de grupo pacifista

1971 – Reunião de grupo pacifista

Era do lado de fora da base que os soldados gastavam grande parte de seu dinheiro: havia bares, restaurantes e lojas diversas. Os letreiros e os preços eram em inglês. Koza parecia (e, de fato, era) território norte-americano. Entretanto, a cidade não deixou de ser okinawana. Ao mesmo tempo em que foi forte a influência dos Estados Unidos na cultura e no dia-a-dia, houve também um esforço da administração norte-americana em incentivar as artes okinawanas.

Por exemplo, em 1956 foi criado o Okinawa Zentō Eisá Matsuri, que atualmente é o maior festival de eisá da ilha. O evento dura 3 dias e conta com a participação de grupos de eisá de outras cidades e províncias, reunindo cerca de 300,000 pessoas. Cada bairro possui um seinenkai, que formam os grupos de eisá, totalizando mais de 20 grupos na cidade.

1969 - Zentō Eisá Matsuri

1969 – Zentō Eisá Matsuri

Eisá em Koza. Ao fundo, uma faixa:

Eisá em Koza. Ao fundo, uma faixa: “We love the US Military”

E por isso, hoje Koza é conhecida como a “cidade do eisá”. Mas, ao mesmo tempo, a “cidade da base” ainda está lá, com os letreiros em inglês e os americanos passeando. Já não é agitada como antigamente, mas a paisagem não nos deixa esquecer o passado (e presente?) americano de Okinawa.

E hoje, Koza está sendo promovida como uma “cidade internacional”. Há imigrantes de várias partes do mundo e restaurantes diversos. Podemos encontrar comida da China, Taiwan, Vietnã, Perú, Jamaica, entre outros. Koza não é cidade americana, e nem “tipicamente” okinawana, ela é uma mistura de várias coisas, provando que o “champuru” não existe só na comida, mas na paisagem também.

Reconstituição de um bar para americanos. As notas eram coladas na parede pelos soldados que partiriam para o Vietnã, para dar sorte.

Reconstituição de um bar para americanos. As notas eram coladas na parede pelos soldados que partiriam para o Vietnã, para dar sorte.

2014 - Notas num bar vietnamita.

2014 – Notas num bar de comida vietnamita: “Okinawa nos pertence”.

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