Obon e eisá: quando os vivos dançam para os mortos

Ontem, dia 28, foi o Ūkui – o último dia do Obon. (Já escrevi sobre o Obon em julho – leia aqui). Em Okinawa, o ponto alto do Obon para muitas pessoas (incluindo nós, do okinawando) é o eisá – dança com tambores, executada energicamente pelos jovens (que aqui no Brasil chamamos de “taikô”).

Unkē, 20h. Tudo começa na casa dos meus parentes em Okinawa-shi, a família reunida jantando “comida de missa”. Então, ouço lá de longe: DON! DON! DON! O tio diz: “é o eisá, ta vindo daquele lado”. A tia retruca: “Não, é do outro”. E com a calma, com a certeza de que o grupo vai passar em frente à casa, descemos para esperar e assistir o “desfile” – michijunē. Demorou, mas o som dos tambores finalmente se aproximou.

Logo, no meio da rua aparece uma caminhonetezinha, equipada com uma luz branca e uma caixa de som que reproduz as melodias meio abafadas que guiam o grupo de 30 pessoas que vem atrás. Na caçamba estão os jikata, homens mais velhos, cantando e tocando o sanshin. Logo depois vemos os rapazes do ōdaiko (tambor grande), vigorosos mas já um pouco ofegantes de tanto dançar. Atrás, os rapazes do shimedaiko (tambor menor) e tiimoi (dança no estilo do karatê), que parecem ser mais jovens, dançam em movimentos amplos e coordenados. E finalmente vêm as moças, teodori, balançando as mãos em movimentos delicados e os pés para cima e para baixo em passinhos curtos, cantando com a voz fina. No meio, um chondarā com a cara pintada e a roupa bagunçada faz palhaçadas, ao mesmo tempo destoando e harmonizando com os demais membros. Um rapaz leva a bandeira com o símbolo e o nome do grupo (o nome do bairro). O público escasso que saiu às pressas de casa para assistir o michijunē se posta na calçada, no evento que acontece só uma vez por ano. E assim termina o primeiro dia do Obon (Unkē) na chamada “cidade do eisá”, Okinawa-shi, anunciando o grande espetáculo que viria nos dias seguintes.

Eisá de Ginowan, 2013

Jikata do eisá de Ginowan (2013)

Eisá de Naka no Machi (2013)

Shimedaiko do eisá de Naka no Machi (Okinawa-shi, 2013)

Ōdaiko - eisá da Okinawa Kokusai Daigaku

Ōdaiko – eisá da Okinawa Kokusai Daigaku

Sumiyoshi seinenkai (Okinawa-shi, 2013)

Teodori do eisá de Sumiyoshi (Okinawa-shi, 2013)

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Teodori e tiimoi do eisá da Meio Daigaku (Naha, 2013)

Chondara (Yakena eisá)

Chondara (Yakena eisá)

Nos dias do Obon, que marcam a visita dos mortos ao mundo dos vivos, os grupos de eisá dançam para seus antepassados. Acredita-se que a dança tenha surgido para acompanhar os cantos budistas “nembutsu” (entoados pelos monges para os mortos), que chegaram em Okinawa por volta do século XIII. Provavelmente, a palavra “eisá” tem origem nos gritos de “eisá, eisá” entoados durante a dança. Porém, alguns consideram que “eisá” vem de “Esa Omoro”, capítulo XIV da importante e clássica obra literária “Omoro Sōshi”.

Com o passar do tempo, os temas religiosos dos cantos nembutsu deram lugar a outros temas, como amor e reza para boa colheita. Atualmente, alguns grupos ainda cantam fragmentos dos cantos nembutsu no começo da apresentação, mas outros não os utilizam mais. Assim, as músicas variam conforme o grupo, havendo algumas mais populares como “Chunjun Agari” e “Tōshin Dōi”. Outros grupos incorporaram repertórios mais modernos, e com novas músicas a cada ano.

As grandes mudanças no eisá aconteceram na era do pós-guerra, com a criação do “Okinawa Zentō Eisá Matsuri”, o concurso de eisá da cidade de Koza (atual Okinawa-shi), que atraía grupos de várias partes da ilha. Ao incentivar a competição, mais jovens passaram a se interessar pela dança. Foram criadas novas coreografias e configurações, e foram incorporadas músicas mais modernas. A partir daí, as apresentações de casa em casa, nas pequenas vilas, passaram a dividir espaço com performances em grandes arenas. Toalhas amarradas na cabeça foram trocadas por lenços (hachimaki) de roxo intenso. Assim surgiram grupos de eisá moderno, que incorporaram músicas modernas e que não representam necessariamente seinenkai de bairros.

Os dançarinos, que antes se posicionavam em círculo, em volta dos músicos do sanshin, hoje dançam em filas, avançando em linha reta, num desfile pelas ruas. Antes, também era comum que os dançarinos ganhassem parte da comida oferecida no butsudan dos espectadores e um pouco de sakê, colocado no grande jarro levado pelo chondarā. Atualmente, as pessoas costumam dar dinheiro para os grupos.

A roupa masculina do pré-guerra consistia em quimonos de fibra de bananeira. Utilizando palha eram confeccionados cordões para cintura, para a cabeça e para amarrar as mangas. Não usavam calçados. As mulheres vestiam quimonos azul escuro ou feitos de fibra de bananeira e faixa para cabelo feita de palha ou tecido branco. Atualmente, as roupas assumiram cores e formas diversas.

Hoje, o eisá é uma das danças mais representativas de Okinawa. Grupos foram formados em outras regiões do Japão e em outros países. Em Okinawa, há vários grupos, tanto do estilo mais tradicional quanto do moderno. Mesmo com as diversas mudanças, os grupos de eisá dos seinenkai ainda se apresentam na rua, em sua região de origem durante o Obon. Em Okinawa-shi, no último dia –  Ūkui, uma multidão vinda de várias cidades vem assistir os vários grupos que desfilam pela noite afora.

Ūkui, 23h. A avenida 330 (san-san-maru), que atravessa a cidade de Okinawa-shi, está cheia de carros no bairro de Sonda, e não há lugar para estacionar. Muitas pessoas andam pelas calçadas que normalmente são vazias. Há famílias, grupos de amigos, americanos, idosos. Todos perambulando em busca dos grupos de eisá, que se ouve mas não se sabe onde estão – é preciso procurar. Quando encontramos, está acontecendo uma batalha – dois grupos frente a frente, tocando ao mesmo tempo.

Uma multidão se aperta na estreita rua, quase invadindo o espaço dos dançarinos e subindo nos muros das casas para conseguir ver a apresentação. Inicialmente, tocam seus respectivos repertórios, terminando com “Tōshin Dōi” – cujas estrofes se repetem infinitamente num caos de tambores de ambos os grupos, que tocam num frenesi acompanhados pela multidão. Só se vê as duas bandeiras pulando, se destacando acima das cabeças. Na escuridão da noite quente, o eisá é um ponto iluminado e cheio de energia e vibração, uma festa de despedida para os antepassados que estão partindo de volta para o outro mundo. O lugar vai ficando cada vez mais quente, a música indistinguível penetra cada vez mais em nossos ouvidos e quando a cabeça parece estar prestes a explodir, o som cessa, acompanhada por uma chuva de aplausos. A multidão se dispersa e ficam os arrepios e o vazio do resto da madrugada.

Batalha entre grupos (Okinawa-shi, 2013)

Batalha entre os grupos de Kubota e Yamazato (Okinawa-shi, 2013)

Okinawa-shi, a cidade do eisá (2013)

Okinawa-shi, a cidade do eisá (2013)

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