Dois monumentos pelas vítimas da guerra: Konpaku no Tō e Heiwa no Ishiji

Em Okinawa existem muitos monumentos em homenagem às vítimas da Batalha de Okinawa. Dois deles, de um jeito diferente, nos dão uma ideia da dimensão da barbárie: o Konpaku no Tō e o Heiwa no Ishiji.

Em Okinawa, morreram mais de 200.000 pessoas, sendo:

– 94.000 civis okinawanos

– 28.228 soldados okinawanos

– 65.908 soldados japoneses

– 12.520 soldados norte-americanos

A província de Okinawa foi a única do território japonês onde houve batalha terrestre, o que explica o elevado número de vítimas. Além disso, morreram mais civis que soldados, ainda mais se forem contabilizadas as mortes por desnutrição, malária e suicídios, por exemplo. Considerando esses casos também, pesquisadores estimam que mais de 150.000 civis tenham sido vítimas da guerra. Olhando o número de mortos no total, chega-se a uma óbvia conclusão: é bastante.

É o que nos mostra o famoso monumento “Heiwa no Ishiji”, com os milhares de nomes dos mortos gravados nas pedras. O Heiwa no Ishiji, que pode ser traduzido como “pilares da paz” foi inaugurado no dia 23 de junho de 1995, na ocasião dos 50 anos da Batalha de Okinawa. Ele se localiza no extremo sul da ilha principal de Okinawa, em Mabuni (cidade de Itoman), perto do precipício onde, acuados pelo exército norte-americano e sem ter para onde fugir, muitas pessoas pularam, perdendo suas vidas. O precipício se chama “Giizabanta”, mas os norte-americanos o apelidaram de “Suicide Cliff”.

“Suicide Cliff” (Itoman, 2013)

Heiwa no Hi e Suicide Cliff

Heiwa no Hi e Suicide Cliff (2013)

Heiwa no Hi

Heiwa no Hi (2013)

Quase na ponta do precipício há o “Heiwa no Hi”, (“fogo/chama da paz”), e atrás dele estão dispostos muros e mais muros com os nomes de todos os mortos da Batalha de Okinawa, independentemente da nacionalidade e sem diferenciações entre civil/militar e vítima/agressor. O objetivo é mostrar que cada vida tem seu valor, ou melhor, que toda vida tem seu valor. Como dizem os okinawanos – “nuchi du takara”, a vida é um tesouro.

Heiwa no Ishiji

Heiwa no Ishiji num dia de sol (2013)

Heiwa no Ishiji

Heiwa no Ishiji num dia de chuva (2013)

As pessoas que visitam o local relatam que é muito triste e tem uma energia muito ruim. Quem tem mais sensibilidade mediúnica costuma passar mal. Afinal, lá morreram muitas pessoas. Mas o lugar é cercado pelo mar, é bonito, novo e tem um conceito. Ele é como as cerimônias do Irei no Hi (26 de junho – Dia em memória aos mortos na guerra): respeitoso, planejado e melancólico.

Outro monumento que tem relação com a quantidade de mortos na batalha é o Konpaku no Tō, que é bem diferente do Heiwa no Ishiji. Também localizado em Itoman (no bairro de Komesu), ele é rudimentar – basicamente é uma pequena montanha envolta por pedras. No topo, há uma pequena pedra, onde está inscrito “Konpaku no Tō”, que pode ser traduzido como “torre (monumento) dos espíritos”. Por quê ele tem esse formato?

Como foi dito, a guerra havia deixado milhares de mortos. Alguma vez vocês já se perguntaram o que aconteceu com os corpos das vítimas? Logo após a Batalha, os okinawanos se viram rodeados por corpos. Grande parte das pessoas morreram durante fugas e deslocamentos para outras partes da ilha, ou seja, longe de suas casas e separados de seus familiares. Assim, saber se a pessoa tinha morrido e em que local, e reconhecer os corpos não era tarefa fácil. Além do mais, os sobreviventes haviam sido levados aos acampamentos/campos de concentração norte-americanos, o que atrasou a tarefa de busca pelos corpos dos familiares.

Alguns meses após o término da guerra, em janeiro de 1946, moradores de Mawashi (Naha) migraram para Komesu (Itoman), pois os terrenos da região haviam sido confiscados para uso do exército norte-americano. Era preciso recomeçar a vida em Komesu, mas antes seria necessário enterrar os corpos em decomposição que estavam por todos os lados.

Inicialmente, o exército norte-americano não permitiu, pois considerou como “ato hostil” (“ato contra os norte-americanos”) e como “devoção ao imperador”, mas como haviam muitos corpos, atrapalhando as construções, o exército norte-americano cedeu a permissão. Sem condições para identificar os corpos, cavaram um buraco e os enterraram, cobrindo com pedras dos arredores, dando forma ao Konpaku no Tō, inaugurado em 27 de fevereiro de 1946. Conforme mais restos mortais iam sendo encontrados, eram levados para lá, alcançando a quantidade de 35 a 40 mil pessoas ali enterradas.

Assim, as pessoas que haviam perdido familiares na guerra e não haviam encontrado os corpos, sem túmulo, passaram a rezar no Konpaku no Tō. Em 1978, após a reversão de Okinawa para o Japão, os ossos que descansavam no Konpaku no Tō foram transferidos para o cemitério nacional em Mabuni. Porém, ainda hoje, no Irei no Hi, muitas pessoas visitam o monumento, deixando flores e acendendo senkō (incenso).

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Konpaku no Tō (2015)

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Objetos deixados no Konpaku no Tō (2015)

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Konpaku no Tō (2015)

Todas as províncias do Japão construíram, no território okinawano, um monumento aos seus mortos na Batalha de Okinawa (soldados do país inteiro foram enviados a Okinawa e perderam suas vidas lá). Ou seja, existem os vários “monumentos das províncias” – Monumento aos mortos de Kyoto, de Hokkaido etc. Ironicamente, Okinawa não possui um “Monumento da província”, ou um “Monumento dos Okinawanos”. Muitos consideram o Konpaku no Tō o monumento que cumpre essa função.

Uma outra curiosidade é que o idealizador do Konpaku no Tō foi Washin Kinjō, prefeito de Mawashi na época. Ao lado do Konpaku no Tō, há uma estátua de Kinjō. Ele havia perdido duas filhas na batalha, que foram recrutadas para trabalhar como enfermeiras no “Himeyuri Gakutotai”. Sabendo onde uma das filhas havia morrido, com a ajuda dos conterrâneos de Mawashi, ele construiu no local o “Himeyuri no Tō” em abril de 1946. Atualmente, além do monumento, foi construído um museu.

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Estátua de Washin Kinjō (2015)

O Heiwa no Ishiji, sendo um monumento mais recente, ele é também mais sutil. Existiu o planejamento, a preocupação com o design e a mensagem. Ele nos mostra como a atual geração tem se preocupado em olhar para a guerra passada e pensar na “paz”. Mas isso tudo atinge um nível de abstração que chega a ser um pouco incômodo – a melancólica beleza do mar, do verde, dos muros, da simetria e da limpeza. Não é à toa que é a “paz” (“heiwa”) que dá nome ao local: pilares da paz, fogo da paz, museu da paz. Obviamente que o esforço é válido, admirável e que o local tem que ser visitado. Mas às vezes é necessário também ver o feio, o sujo, a dor, o sofrimento, os corpos para entender melhor o que foi a guerra. Para isso, é imprescindível conhecer a história do Konpaku no Tō e visitá-lo, imaginando a montanha de corpos putrefatos e sofridos na vida e na morte, ainda que isso seja pouco em relação à experiência de quem viveu no campo de batalha.

Referências bibliográficas:
http://www.city.naha.okinawa.jp/kakuka/heiwadanjyo/heiwahasshintosi/konpaku.html
「新沖縄修学旅行」松田正己・松元剛・目崎茂和 高文研
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3 comentários sobre “Dois monumentos pelas vítimas da guerra: Konpaku no Tō e Heiwa no Ishiji

  1. vocês sabem onde posso achar a imagem que passaram durante a palestra da “Batalha de Okinawa” no Okinawa Festival? Aquela que haviam pessoas, possivelmente em Futenma com um cartaz dizendo algo como “O dinheiro só dura um ano, a terra é pra vida toda”?

    procurei em todo lugar e não acho. Espero que possam ajudar 😉

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  2. Pingback: A Batalha de Okinawa ainda não acabou | okinawando

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