Henoko e esse bicho dugongo na cultura de Okinawa

A construção da base militar americana em Henoko (cidade de Nago) tem gerado grande polêmica na sociedade okinawana. Muitos cidadãos okinawanos se opõem à construção. Nos protestos, em meio aos gritos de “No Base!”, eis que surge um personagem que deve ser protegido: o dugongo (“dugong”/ジュゴン em inglês e japonês). No último post (clique aqui para ler), já falamos sobre as características desse animal. Mas o que ele significa para a cultura de Okinawa?

Dugongo

Dugongo

Em uchinaaguchi, o dugongo é conhecido como “zan”, “jan” ou “zan no io”. Também era considerado um animal semelhante ao humano, conhecido também como “akangaiyuu” (赤子魚), pois emite um som parecido com o choro dos bebês.

Essa semelhança também fez com que o dugongo fosse conhecido como “sereia” (“ningyo” 人魚), criatura mitológica metade humana e metade peixe. Em Okinawa existem algumas lendas sobre sereias, que muitas pessoas acreditam que fazem alusão ao dugongo. Leia algumas delas:

A sereia e o tsunami

Um pescador, quando retirou sua rede do mar, encontrou uma sereia enroscada nela. Do tamanho de um ser humano, era exatamente como uma mulher, mas com cauda igual à de um peixe. Ela disse: “Se você me soltar, eu te faço uma revelação”. Muito assustado, o pescador soltou a sereia que, agradecida, disse: “Um tsunami está vindo; suba agora para as montanhas!”, e logo mergulhou para o fundo do mar. O pescador, alarmado, correu para a vila e gritou a todos para fugirem e levou sua família para a montanha. Porém, como o aviso havia sido dado por uma sereia, os moradores da vila não acreditaram na história. Mas o tsunami logo veio e devastou o povoado. Somente o pescador e sua família sobreviveram.

Os três pescadores e a sereia

Esta é uma lenda que um senhor ouviu de seu pai, sobre uma sereia chamada “Jan”.

Na vila de Nosoko, na ilha de Ishigaki, havia três pescadores. “Hoje a pesca vai ser boa”, dizia um deles quando puxou a rede. Para sua surpresa, veio nela uma mulher com cauda de peixe, que disse: “Eu não consigo trabalhar na terra, então me devolva para o mar”. Os pescadores conversaram e decidiram: “Coitada, vamos soltá-la então.”

Livrando-se da rede, ela pulou no mar e disse: “Eu pertenço ao mar e conheço seus segredos. Logo um tsunami vai vir, então fujam para algum lugar”. Os pescadores correram e avisaram os moradores da vila vizinha. Estes debocharam: “Isso não existe”. Avisaram também os moradores de sua vila, Nosoko, que refugiaram-se nas montanhas. O tsunami veio e devastou o vilarejo vizinho, e somente os moradores de Nosoko se salvaram.

Acredita-se que as duas lendas acima se referem a um tsunami que realmente aconteceu, o “Grande Tsunami de Meiwa”, que atingiu as regiões de Yaeyama (onde fica a ilha de Ishigaki) e Miyako em 1771 (ano 8 do Período Meiwa).

A esposa sereia

Um dia, um pescador salvou uma sereia que havia ficado presa na rede. Depois disso, apareceu uma bela moça em sua casa e eles se casaram. Porém, certo dia eles brigaram e a esposa voltou para o mar. O pescador amava muito sua esposa e ficou triste, contemplando o mar. Então, ele se transformou num pássaro chamado maajinaa, que começou a chamar “ingaa, ingaa…”. Diz-se que antigamente o dugongo também era chamado de “ingaa iyuu” (インガー魚).

Apesar do dugongo ser bem maior que um humano, além de sua cabeça não parecer em nada uma pessoa, por que as pessoas de antigamente se referiam a ele (a metade dele) como mulher? Uma das razões pode ser o fato de que o dugongo é um mamífero, e mãe e filhote possuem uma ligação muito forte, permanecendo juntos por cerca de um ano e meio. É provável que os pescadores, ao observarem os dugongos amamentando seus filhotes como se os estivessem abraçando, tenham considerado o temperamento do animal muito semelhante ao do ser humano.

1960 – o dugongo habitava a região das ilhas Amami (norte), Okinawa (centro) e ilhas Yaeyama (sul). Atualmente, só há registros de dugongos na ilha principal de Okinawa.

O Santuário do Dugongo

Atualmente, o dugongo não é mais visto nas ilhas Yaeyama. Além das lendas, existem outros vestígios da presença do animal na região. Nas pequenas ilhas de Aragusuku e Kuroshima (parte de Taketomi-chō), a carne do dugongo era enviada como tributo ao Reino de Ryukyu (Shuri). Acreditava-se que a carne era um remédio para atingir a longevidade, sendo muito valiosa.

Ilha de Aragusuku é localizada nas ilhas Yaeyama, no sul de Okinawa

Na ilha de Aragusuku, em março, quando finalizava-se o plantio do arroz, cerca de 30 homens saíam de barco para caçar dugongos, levando comida suficiente para 10 dias no mar. Quando a maré baixava, os pescadores identificavam o rastro do dugongo (a parte comida das ervas marinhas), e quando a maré subia eles jogavam a rede no local. Quando pego pela rede, os homens mais fortes que se aproximavam do animal. Porém, encontrá-lo e capturá-lo não era tarefa tão fácil assim, e por ano conseguiam pegar somente 2 ou 3 dugongos.

A carne e a pele eram deixadas durante uma ou duas semanas secando em cima de uma pedra aquecida pelo fogo. Os ossos eram levados para o Aaru Ugan (東御嶽), um “utaki” (local sagrado, de acordo com as crenças de Okinawa). Nesse utaki, os moradores de Aragusuku rezavam pela segurança e pela fartura na pesca. Diz-se que no altar de pedra, antigamente, havia muitos ossos de dugongo enfileirados. O Aaru Ugan existe ainda hoje, e é conhecido como “Santuário do Dugongo” (ジュゴン神社 “dugong jinja”). Não é permitida a entrada de turistas.

Caminho que leva ao Aaru Ugan, na ilha de Aragusuku e placa de “proibida a entrada”

 

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Aaru Ugan, na ilha de Aragusuku

Além desse utaki em Yaeyama, escavações na ilha principal também encontraram ossos de dugongo. Em Ginowan, por exemplo, já foram encontrados arpões feitos com ossos da costelas de dugongo.

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Abaixo, à esquerda, desenho dos arpões feitos de ossos de dugongo

Nirai Kanai – o além-mar

De acordo com a crença okinawana, além do mar existe o Nirai Kanai, o mundo dos deuses. O dugongo seria o mensageiro entre os dois mundos, trazendo nas costas os deuses do além-mar todos os anos. Para auxiliar a chegada dos deuses na terra, as pessoas construíam casinhas de madeira e plataformas sobre o mar. Na primavera, a proliferação dos cardumes era considerada um presente dos deuses.

É importante ressaltar que antigamente os alimentos eram escassos. Atualmente, é impensável a caça de dugongos, da mesma forma que é polêmica a caça às baleias. Até mesmo o consumo de carnes em geral é tema de controvérsias. Considerando a época, não é antagônico que ao mesmo tempo em que adoravam o dugongo num altar e o consideravam sereia ou mensageiro dos deuses, também o caçavam para servir de alimento. O fato é que o dugongo foi por muito tempo um animal presente na cultura de Okinawa – seja em forma de alimento, oferenda no altar ou lenda – mas hoje é raramente encontrado. E, agora, com a polêmica da construção da base em Henoko, as pessoas têm se conscientizado e buscado a proteção do dugongo, que ganhou destaque como símbolo da fauna okinawana.

Fonte:
「ジュゴンはなぜ死ななければならなかったのか」真鍋和子
Fotos:
http://newsphere.jp/national/20150217-1/
http://54mademo.jp/datasheet/ジュゴン(ザン)と東御嶽
http://okinawan.flop.jp/okinawan/okinawan.cgi?action=make_html&cat=32&txtnumber=log&next_page=40&t_type=
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