A Revolta de Koza

Há exatos 45 anos, no dia 20 de dezembro de 1970, a insatisfação contra a ocupação americana resultou no dia em que o okinawano deixou de ser um povo pacífico. Conheça a Revolta de Koza e a noite em que Okinawa pegou fogo, literalmente.

コザ

Foto: 照屋寛則

Koza – a cidade da base

1945, eclode a Batalha de Okinawa. Instalações militares construídas pelo exército japonês foram dominadas pelos norte-americanos. Uma delas foi a Base Aérea de Kadena, que atualmente abrange partes de 3 cidades: Kadena-chō, Chatan-chō e Okinawa-shi. Devido à sua localização estratégica na Ásia, Okinawa servia aos interesses dos Estados Unidos, que trabalhou na instalação de bases militares.

Antes da guerra, a atual cidade de Okinawa-shi era formada pelas cidades de Goeku-son e Misato-son. Após a guerra, com a ocupação americana, o exército deu o nome de “Koza”. Acredita-se que o nome tenha se originado no ideograma 胡差, mas outros dizem que o nome surgiu de um engano, uma mistura de Goya (胡屋) e Koja (古謝), bairros da região.

Renascendo das cinzas da guerra com um novo nome, Koza atraiu também novos frequentadores. Perto do portão da gigantesca base, surgiu uma zona de comércio voltada aos soldados norte-americanos, e Koza passou a ser conhecida como a “cidade da base” (kichi no machi – 基地の町). Leia mais sobre Koza aqui. 

Os soldados que partiriam para a Guerra do Vietnã paravam antes em Okinawa. Como muitos não sabiam se voltariam vivos, aqueles momentos em Koza eram aproveitados ao máximo. Na noite de Koza havia bebidas, drogas ilícitas, prostituição e bares com muita música (como o rock’n’ roll). 

As bases militares tiveram importante papel na reconstrução de Okinawa no pós-guerra. Entretanto, a presença das bases e de seus soldados trazia graves problemas, como acidentes de avião, acidentes de trânsito e violência sexual, que ocorriam com muita frequência.

Em 1955, uma estudante primária foi encontrada no lixo, após ser estuprada e morta por um soldado. Em 1965, uma menina foi atropelada por um trailer militar. Só em 1970, ocorreram 960 acidentes envolvendo estrangeiros em Okinawa, sendo 348 deles em Koza.

Mas, se acidentes e descontentamentos vinham se acumulando desde o início da ocupação, o que fez com que a Revolta de Koza explodisse somente em dezembro de 1970?

Episódio 1 – Gás venenoso

Julho de 1969, acontece um acidente: um vazamento de gás venenoso no depósito de munições e pólvora de Chibana (Koza). 24 pessoas são levadas para o hospital. Lá também estava sendo armazenado o gás sarin (considerado hoje como arma de destruição em massa).

Assustados com o perigo das armas químicas armazenadas nas bases militares, os okinawanos começaram a protestar pela sua retirada da ilha, sem resultado.

Episódio 2 – Atropelamento em Itoman

Setembro de 1970, um soldado embriagado dirigindo em alta velocidade atropela uma mulher em Itoman, no sul de Okinawa. O crime é julgado pelo exército americano. 11 de dezembro de 1970, sai a decisão: o soldado é absolvido.

O fato de tanto a investigação quanto o julgamento serem deixados a cargo do exército americano gerava grande descontentamento entre os okinawanos, já que na maioria dos casos os soldados eram absolvidos. Jovens de Itoman clamaram para que a investigação fosse refeita de forma imparcial, mas não obtiveram resposta.

Episódio 3 – Protesto em Misato

Dia 19 de dezembro de 1970, ocorre um grande protesto em Misato (ao lado de Koza), contra o armazenamento de gases venenosos em Okinawa. Apenas 1 semana após o resultado do julgamento do acidente de Itoman, o protesto contra o gás venenoso torna-se também um protesto contra a absolvição do soldado embriagado. Cerca de 10 mil pessoas participam.

Episódio 4 – A Revolta de Koza

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O local onde ocorreu a Revolta de Koza. Os quadrados são os carros queimados. À direita, a avenida 330. Indo para baixo, a Geeto dōri e a entrada da base.

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Atual Avenida 330 (em direção a Moromi e Ginowan). Aqui começou a revolta de Koza.

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Atual cruzamento de Goya (Goya jujiro). À esquerda, a avenida 330; e a avenida à frente é a Geeto dōri. Nessas duas avenidas aconteceu a Revolta de Koza.

Dia 20 de dezembro, 1h da manhã, avenida 330 em Koza (na altura do atual mercado San-E de Naka-no-machi). Um soldado americano atropela um homem. Chegam 5 carros da polícia militar (MP – Military Police) e 1 carro da polícia civil (Polícia de Ryukyu). O ferido é levado ao hospital. Curiosos começam a se aglomerar no local. Participantes do protesto de Misato que estavam em bares da região chegam. “Esse é o segundo acidente de Itoman!”, alguém grita. “Investiga direito!”, outro grita. A agitação do protesto mais cedo ainda não havia se esgotado. Muitos gritam.

1h35 da manhã, soldado americano e sua namorada okinawana passam por acaso pelo local. As pessoas cercam o casal e começam a gritar. Um policial tenta fugir com os dois no carro da polícia militar. A multidão cerca o carro e tenta tombar o veículo de lado. Com ajuda de outros policiais o carro foge. A massa começa a procurar outros carros. Mais policiais são chamados. “Contra o julgamento pelo exército americano! Levem de volta o gás venenoso!”

500 pessoas estão atrapalhando o trânsito. Alguém grita: “Deixa passar os carros okinawanos, parem só os ki nanbaa (黄ナンバー)”, carros com placas amarelas, do exército.

2h10 da manhã, um carro ki nanbaa se aproxima. “Chegou um americano!”, alguém grita. O carro bate em outro carro. A massa cerca o acidente, batem e sacodem o veículo. Alguém tenta puxar o motorista pra fora. Um policial tenta acalmar a multidão.

2h15, alguém começa a lançar pedras. Um bloco de cimento do tamanho de uma cabeça é atirado contra o vidro dianteiro do carro. Um homem é ferido. A polícia chama reforço. 700 pessoas estão no local. Não pára de chegar gente.

2h30, 4 policiais chegam no local. Dão 7, 8 tiros para o alto. A multidão se assusta. Os policiais retiram o ferido do carro. As pessoas se dirigem ao veículo da polícia, tombam para o lado e tacam fogo. Um policial atira 30 vezes para o alto.  A multidão pára e recua 20 metros. 15 policiais tentam virar o carro de volta. As pessoas voltam e atiram pedras. Viram o carro e colocam fogo novamente.

As 1000 pessoas se dividem em 2 grupos. Um vai para o Dai ni geeto (第二ゲート – 2º portão). Outro, para Moromi dōri (諸見通り). Avançam. Quando encontram um carro do exército, tombam para o lado e ateiam fogo.

1000 pessoas estão perto do Dai ni geeto. Entram na base e incendeiam prédios e o carro dos bombeiros. Os soldados norte-americanos os esperam com tiros de advertência (威嚇発砲) e jatos de água (放水).

2000 pessoas do grupo de Moromi se depara com soldados americanos. Atiram bombas caseiras e pedras. O exército devolve bombas de gás lacrimogênio.

6h da manhã a multidão se vai. Sobram 82 carros queimados e 21 presos pelas polícias civil e militar.

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Foto: 吉岡攻

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Carro da polícia militar. Foto: Tamotsu Takemoto

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Soldado americano ao lado de carro queimado. Foto: Larry Gray

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Policial okinawano examina destroços de carros. Foto: Larry Gray

Peça de teatro “Iwao”, cena do Koza Riot

Nos dias de hoje, é difícil imaginar a cena da Revolta de Koza. Existem poucos registros do momento, por não ter sido um protesto planejado. Uma ótima reprodução da Revolta foi feita para o musical “Iwao”:

Epílogo

Apesar da violência da Revolta de Koza, não foram queimados carros que não fossem de americanos, nem houve danos nas lojas da região. Também não houve mortes e nem feridos graves. E muitos dizem que foram poupados os carros dos soldados negros, uma vez que o movimento pelos direitos civis dos negros americanos também atingiu Okinawa.

A Revolta de Koza causou grande choque nas autoridades japonesas e americanas. Depois de 25 anos de ocupação americana, tal explosão de ânimos pareceu um tanto curiosa. Diferentemente dos outros protestos, não houve planejamento – foi espontânea.

O alvo da ira dos protestos na época eram as bases militares, e não os soldados americanos em si. Os moradores de Koza já conviviam com militares havia 25 anos, muitos tendo relações estreitas – havia amigos e pessoas boas entre os americanos.

A raiva dos okinawanos explodiu diante do poder arbitrário e excessivo da ocupação militar norte-americana, que pisava na dignidade e nos direitos humanos do povo de Okinawa. A Revolta de Koza mostrou o descontentamento que até então estava entalado na garganta. O mais importante não é pensar que a revolta ocorreu, mas pensar nos motivos que levaram os okinawanos a essa explosão tão extrema.

Esse é uma das poucas manifestações violentas no longo histórico de protestos pacíficos em Okinawa desde a guerra. Ainda hoje, apesar de Okinawa ter sido devolvida ao Japão, persistem muitos dos problemas que existiam na época e que levaram à Revolta, como acidentes e crimes envolvendo soldados norte-americanos.

Para saber mais:

*Histreet ヒストリート (Museu do Pós-guerra de Okinawa-shi)

Okinawa-shi Chuo 1-17-17

http://www.city.okinawa.okinawa.jp/about/130/233

*Koza Bodo – Aplicativo sobre a Revolta de Koza (em japonês)

Dados históricos e tour 3D

Para Google Play

Para Apple

*Video do canal Koza Uragawa (em japonês)

Entrevista com o fotógrafo Kazuo Kuniyoshi e passeio pelo local onde ocorreu a Revolta de Koza.

Fonte:
Aplicativo “Koza bodo”
Fotos:
http://heiwa.yomitan.jp/3/2682.html
http://www.japantimes.co.jp/community/2011/12/17/general/military-policemans-hobby-documented-1970-okinawa-rioting/#.VncMpOODGkp
http://www.japantimes.co.jp/life/2009/12/27/general/koza-remembered/#.VncO-OODGko
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