A Batalha de Okinawa ainda não acabou

Hoje (23 de junho) é o Irei no Hi, que costumo traduzir como “Dia em Memória aos Mortos na Batalha de Okinawa”. Já escrevi sobre ele ano passado, e hoje resolvi postar um texto que escrevi em Okinawa em 2013 para participar do concurso de oratória da minha universidade (Okinawa International University). Com esse texto ganhei o prêmio de primeiro lugar na minha categoria e animada, inscrevi-me também no concurso da província de Okinawa, e acabei sendo uma das 12 pessoas selecionadas para participar e apresentar meu discurso.

A BATALHA DE OKINAWA AINDA NÃO ACABOU

Desde que vim para Okinawa, aprendi muitas coisas. Meu objetivo inicial era estudar a questão das bases militares mas, no fim, meu maior interesse voltou-se à Batalha de Okinawa.

E a razão foi que, ao viajar e visitar vários lugares, a maior impressão que tive é a de que em TODOS eles ainda há vestígios da Batalha de Okinawa. Por exemplo, vocês conhecem o Castelo de Shuri? Para mim, foi um choque descobrir que, embaixo do Castelo, ainda existe um bunker construído durante a Guerra. E, perto do estacionamento, há uma grande pedra quadrada, ali sozinha. Apesar de estar bem em frente aos olhos de todos, poucos se dão conta de que ali se encontra uma das entradas do bunker.

shuri

Entrada do bunker no Castelo de Shuri

Na língua de Okinawa, “gama” significa “caverna”. Okinawa possui muitas cavernas, e na época da Guerra, muitas pessoas se esconderam e morreram dentro delas. Mesmo passados 68 anos, ainda é possível entrar em muitas. Até agora, entrei na Abuchira Gama, Todoroki no Gou, entre outras. No meio da escuridão, ao mesmo tempo em que era tomada pela tristeza, imaginava como se sentiam as pessoas que se escondiam nessas cavernas.

Então, certo dia, uma lembrança me veio à cabeça. Minha obá (avó) também se escondeu numa caverna, e sobreviveu. Eu sou brasileira, mas meus avós nasceram em Okinawa e foram vítimas da Guerra quando crianças. Então, nos anos 60, imigraram para o Brasil. Por isso, desde criança, ouço deles algumas histórias sobre a Guerra.

O episódio mais antigo do qual eu me lembro é uma conversa sobre a fome. Certo dia, quando era criança, eu me recusei a comer. Minha obá me disse algo como: “Mottainai! (Que desperdício!) Na Guerra, não tinha comida. Você não sabe o que é fome. Come tudo!”. Eu, ingênua e teimosa, respondi: “Eu sei sim! Outro dia, quando voltei da escola, tava com muita fome!”. Minha obá riu ternamente. Naquela época, eu não sabia os diversos significados da palavra “fome”. Depois, eu compreendi. Não sei se é graças a minha obá, mas hoje, eu não deixo a comida sobrar e como de (quase) tudo.

Entretanto, apesar de saber sobre a Guerra, até vir para Okinawa não tinha aquela motivação para estudá-la. Os jovens de Okinawa também, apesar de estudarem na escola, são poucas pessoas que conhecem bem o tema. Muitos dos meus amigos, mais que na Guerra, têm interesse na cultura, na natureza – ou seja, eles tem interesse nos pontos positivos.

Não que isso seja ruim, mas a Guerra e a ocupação americana influenciaram diversos aspectos de Okinawa, e mesmo querendo ignorá-los, é impossível fazê-lo. Atualmente, estudo na Okinawa International University, e andando cerca de 100 metros, há vestígios da Guerra. Uma árvore queimada e os restos de uma parede – esses são os rastros deixados por um helicóptero norte-americano que caiu na universidade em 2004. Esse helicóptero saiu da base militar de Futenma, localizada ao lado do campus. Apesar de ter ocorrido há somente 9 anos, não é possível dizer que esse acidente só ocorreu porque tudo começou quando Okinawa foi transformada em um campo de batalha em 1945?

Em suma, a Batalha de Okinawa ainda está ao alcance de nossos olhos. Ainda há muitos “gama”. Os okinawanos vivem sobre bombas não explodidas e ossos de cadáveres nunca encontrados. Grandes bases militares ainda ocupam a ilha. E, além disso, como meus avós, ainda existem muitos sobreviventes da Guerra, espalhados por vários países.

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Restos mortais da época da guerra encontrados recentemente em Nishihara

Pensando dessa forma, existem diversas oportunidades de estudar mais sobre a Batalha de Okinawa. O estudo da Batalha de Okinawa é extremamente importante não por se tratar de coisas sobre o passado, mas sim para compreender a atual situação de Okinawa e pensar sobre as possibilidades de seu futuro. À medida que a paisagem de Okinawa se transforma e os sobreviventes da Guerra morrem, os modos de transmitir a experiência da Guerra também se tornam mais difíceis. Desde 1945, guerras e batalhas acontecem em diversas partes do mundo. Por isso, quanto mais os jovens estudarem sobre os horrores da guerra e suas conseqüências, não será mais provável a construção de um mundo pacífico? 

benron taikai

Cartaz do concurso da província de Okinawa

Infelizmente, não ganhei o concurso da província de Okinawa. Mas, ganhei uma caneta “de chefe”, num estojo de madeira, um certificado, e um elogio de um dos jurados, que veio falar comigo no final, dizendo que gostou do tema que abordei e que os jovens deveriam pensar mais sobre esses assuntos, o que me deixou feliz.

Por ser um discurso e escrito originalmente em japonês, algumas partes desse texto de 2013 já não me agradam mais. Mas gosto porque ele apresenta uma das coisas que eu mais falo sobre Okinawa: a guerra ainda não acabou. Você, que vai viajar para Okinawa, lembre que seus vestígios não estão só no Museu e no Memorial da Paz. Eles estão por todos os lados. As feridas só foram cobertas com um band-aid – Okinawa foi reconstruída e hoje é um lugar lindo e alegre. Mas por dentro há aquela dor que, mesmo depois de 71 anos, ainda persiste – pelo menos enquanto a questão das bases militares, das bombas não explodidas, dos corpos não encontrados, entre outras, não forem resolvidas.

Leia nossos outros posts sobre a Batalha de Okinawa: 

(ainda temos vários outros para serem escritos)

A invasão de Okinawa pelo exército norte-americano: monumentos

Dois monumentos pelas vítimas da guerra: Konpaku no Tō e Heiwa no Ishiji

Lembrando os mortos da Guerra – Irei no Hi

Chibichiri-gama e Shimuku-gama

Tsushima-maru

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Um comentário sobre “A Batalha de Okinawa ainda não acabou

  1. Bom dia
    Tive oportunidade de visitar Okinawa 4 vezes…tb compartilho o sentimento que a guerra não acabou…
    Vendo todo domínio que existe ainda, locais da guerra que tem um força inacreditável…e tristezas tb…
    Apesar de td alegria que nossa terra transmite sempre fica no coração o sentimento de dor e tristeza que nosso familiares passaram durante o período de guerra…
    Agradeço por não deixar esquecer essa época…hj faz parte da história…mas somente a mudança de cada um para que um dia essa agressão a vida é a paz seja somente parte da história… obrigado por transmitir as gerações o que foi a história…para a grandeza, alegria e humildade do povo de Okinawa não deixe de existir…
    Parabéns e continue transmitido um pouco das nossas origens…
    Abs sempre!

    Curtido por 1 pessoa

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