“Mulheres de conforto” em Okinawa

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“Ex-mulheres de conforto” protestando em frente à embaixada do Japão

Aproveitando o Dia Internacional da Mulher, neste primeiro post vamos falar sobre as chamadas “mulheres de conforto” em Okinawa e as polêmicas que envolvem o tema.

“Mulheres de conforto” (ianfu ou ianpu – 慰安婦, ou “comfort women”, em inglês) é o eufemismo utilizado para se referir às mulheres que foram escravizadas sexualmente pelo exército japonês, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Nos lugares onde o exército japonês se instalou (incluindo Japão e Okinawa) e dominou (China, Coreia e países do sudeste asiático) foram criadas “estações de conforto” (ianjo – 慰安所), bordeis voltados à exploração das mulheres e à satisfação dos militares japoneses.

A primeira estação de conforto foi criada em Xangai, em 1932, quando o exército japonês já estava na região. Em 1937, com o início da Guerra Sino-Japonesa, o contingente nipônico na China aumentou para cerca de 800 mil homens, e as estações de conforto foram instaladas em diversas regiões. A partir de 1941, quando o conflito tornou-se global e o Japão passou a ter como inimigos os Aliados (EUA, Inglaterra, Holanda etc), o país expandiu seu domínio para o Sudeste Asiático e, consequentemente, criou mais estações de conforto.

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Mapa das estações de conforto na Ásia. Abaixo, a ilha de Java.

As estações de conforto

Mas por quê o Japão criou esses bordeis? Os motivos principais para a criação destas estações marcadas pela violência e exploração sexual foram:

1 – Evitar que soldados estuprassem as mulheres das áreas ocupadas, o que era muito comum. Além da violência sexual, os soldados japoneses eram responsáveis por massacres, saques e incêndios, o que gerava revolta na população local e um sentimento antijaponês. Para garantir a segurança e estabilidade, foram criadas as estações de conforto.

2 – Prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Em 1918, quando os soldados japoneses foram enviados para a Sibéria e freqüentaram os bordeis locais, doenças se espalharam entre os militares, diminuindo o contingente. Nas estações de conforto, as mulheres eram submetidas a exames de saúde pelos médicos do exército e eram distribuídos preservativos e medicamentos.

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Preservativo do exército japonês – New York Museum of Sex

3 – Aliviar o estresse. Como muitos soldados eram enviados para territórios ocupados, diferente de uma batalha, não se sabia quando iriam retornar para casa. Sem folgas, aumentava-se o estresse e o sentimento de que não retornariam ou morreriam de qualquer forma, comportando-se de forma inconseqüente, violentando mulheres. O descontentamento também poderia fazer com que soldados se insubordinassem a seus superiores.

4 – Preservar a confidencialidade das operações militares. Se os soldados freqüentassem bordeis locais, haveria o risco de que vazassem informações sigilosas. As estações de conforto eram administradas diretamente pelo exército japonês, que proibia que as mulheres saíssem do local, evitando que fugissem ou que espalhassem informações.

Com o avanço da guerra no Pacífico, era necessário proteger o território japonês. Dessa forma, Okinawa começou a ser preparada para o confronto, recebendo um grande contingente de soldados japoneses. As primeiras estações de conforto em Okinawa foram criadas em 1941, nas ilhas de Minamidaito e Iriomote, onde estavam sendo construídos uma base aérea e uma fortaleza, respectivamente. Em março de 1944, com a implantação de bases aéreas e a chegada do 32º Exército, as estações de conforto se proliferaram até as partes mais remotas do pequeno arquipélago, ultrapassando a quantidade de 130.

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Essas estações eram estabelecidas em: residências comuns, com a expulsão dos moradores; escritórios, fábricas e hospitais dos vilarejos; pousadas e restaurantes ou eram construídas pelo próprio exército. A localização delas está sendo mapeada por pesquisadores, que colhem informações através de depoimentos de ex-soldados japoneses, vítimas e moradores. A maioria das “estações de conforto” era instalada em residências civis tomadas à força, sendo que a presença dessas mulheres e a existência desse sistema de bordeis não era ignorada pelos civis okinawanos. Ainda hoje estão de pé algumas dessas casas, que foram devolvidas a seus donos após a guerra, e muitas pessoas ainda guardam em suas memórias a imagem de vizinhas coreanas.

Na pequena ilha de Tokashiki, o exército tomou a casa da família Nakamura, para onde foram levadas 7 coreanas de 16 a 30 anos, que ganharam nomes japoneses. Quando visitei a ilha, ao perguntar para os moradores, eles me levaram e me mostraram o local. A casa ao lado, da família Shinzato, funcionava como sala de espera e a dona da casa era obrigada a cozinhar para as coreanas.

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Ilha de Tokashiki – Local onde se localizava a “estação de conforto”

As mulheres

As “mulheres de conforto” em Okinawa eram em sua maioria trazidas da Coreia, país que fora colonizado pelo Japão desde 1910. Muitas eram aliciadas com propostas de emprego no Japão, com promessas de que seria possível juntar dinheiro e enviar para a família, entre outras mentiras. Outras eram levadas à força.

Chegando em Okinawa, o que as esperava era uma rotina de terror: a de escravas sexuais. Vigiadas e sem liberdade, eram obrigadas a manter relações sexuais com 10, 20 homens por dia. Um dos relatos diz que, em fila, os soldados esperavam “3 a 4 minutos, para depois o próximo entrar”. Sem refeições, muitas delas  pediam comida para os vizinhos. Os exames para detectar DSTs eram humilhantes, e há relatos de cirurgias mal feitas que deixaram efeitos colaterais.

Com a chegada da guerra em Okinawa, muitas estações de conforto foram transferidas para dentro das cavernas e bunkers, onde os soldados japoneses haviam se instalado. Na caverna Abuchiragama (na atual cidade de Nanjo), por exemplo, havia uma pequena estação de conforto com 6 a 10 coreanas e cerca de 7 okinawanas. Porém, com o avanço da guerra e as seguidas transferências de esconderijo, as “mulheres de conforto” eram deixadas para trás. Há pessoas que relataram que viram 3 moças de 17 e 18 anos chorando numa casa em Yaese e que cerca de 14 mulheres estavam escondidas num chiqueiro em Itoman. Numa terra desconhecida e sem amigos, muitas coreanas perderam suas vidas durante a Batalha.

Além das coreanas, havia também okinawanas e japonesas, que eram destinadas aos oficiais de alto escalão. As okinawanas eram principalmente as prostitutas do distrito de Tsuji (Naha), mas também havia outras mulheres, como trabalhadoras trazidas de restaurantes. As japonesas eram de províncias como Fukuoka e Nagasaki. Dessa forma, havia uma discriminação de acordo com a origem da mulher. Enquanto as coreanas permaneciam presas nos bordeis para os soldados comuns, aquelas destinadas aos oficiais recebiam refeições e vestiam belos quimonos, além de ser permitida a saída das estações. Porém, não foram poucas as okinawanas enviadas para estações comuns, onde se formavam longas filas de soldados.

Entre os próprios okinawanos, havia a falsa ideia de que as “mulheres de conforto” já eram prostitutas antes e que por isso a criação das estações de conforto não foram um problema. Independentemente se eram prostitutas ou não, é fato que as “mulheres de conforto” foram vítimas desse sistema de violência e exploração sexual criado pelos soldados japoneses. Entretanto, esse preconceito tem duas consequências. A primeira é que, por conta do tabu que cerca a violência sexual e a questão da prostituição como profissão, foram poucas as okinawanas e japonesas que levantaram suas vozes para falar sobre o assunto após a guerra, ao contrário de mulheres coreanas, por exemplo, que se organizaram para pedir indenização ao governo japonês.

A segunda consequência é que as estações de conforto abriram precedente para que a ideia fosse copiada no pós-guerra, com a criação de zonas de prostituição voltadas para os soldados norte-americanos, visando evitar estupros nas áreas residenciais. Entretanto, o ciclo de violência sexual não terminou até hoje. A cada ano, são registrados inúmeros casos em Okinawa, muitos deles cometidos por soldados e trabalhadores das bases militares norte-americanas. Um dos mais recentes e de maior repercussão foi o estupro e assassinato de Rina Shimabukuro, em junho de 2016.

As polêmicas e as lutas

Apesar de terem passado mais de 70 anos da guerra, a questão das mulheres de “conforto” ainda é muito polêmica. Recentemente, uma estátua simbolizando as escravas sexuais foi instalada em frente ao consulado do Japão na cidade de Busan, Coreia do Sul, gerando uma controvérsia diplomática entre os dois países. O Japão alega que já pediu desculpas e pagou indenização às vítimas, conforme o acordo firmado pelos dois países em 2015. Por outro lado, há aqueles que afirmam que o acordo foi feito sem a participação das vítimas, e por isso o assunto ainda não está encerrado.

Considerando a minha experiência em Okinawa, gostaria de abordar alguns pontos sobre essa questão e a postura do Japão.

Primeiro, por quê o Japão criou tanto escândalo por causa de uma estátua? Estátuas e monumentos servem para prestar homenagens a pessoas que reconhecemos como importantes, e em muitos casos, são homenagens póstumas. Além de lembrar aqueles que não estão entre nós, eles tem outro papel: lembrar-nos da barbárie, para que ela não aconteça nunca mais, como o Museu do Holocausto de Auschwitz e o Memorial da Paz (Heiwa Kinen Kōen) em Okinawa. Ali, há um monumento dedicado às vítimas coreanas, o Kankoku-jin Irei-no-tō. Porém, este não cita as “mulheres de conforto”.

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Heiwa Kinen Koen – monumento às vítimas coreanas da Batalha de Okinawa

Na ilha de Tokashiki, podemos encontrar o Monumento Arirang (Ariran no tō). Construído em 1997 em terreno doado pelos moradores da ilha, ele lembra as vítimas coreanas da guerra nas ilhas Kerama: as “mulheres de conforto” e os “gunpu”, homens coreanos obrigados a construir fortificações e aeroportos, transportar munição e trabalhar como estivadores, exercendo trabalhos de alto risco. Escravizados, pereceram longe de sua terra natal. No centro, está escrito “reviver” ou “restaurar a vida”.

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Tokashiki – Monumento Arirang

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Tokashiki – Monumento Arirang

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Tokashiki – Monumento Arirang

Na ilha de Miyako, onde existiam 17 estações de conforto, também há um monumento chamado Arirang, construído em 2008. Clamando pela paz, ele lembra a violência cometida contra as mulheres na II Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã, em 12 idiomas.

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Miyako – Monumento Arirang

Okinawa, a única parte do território japonês onde houve batalha terrestre, que sofreu na pele a dor da guerra e perdeu 1/3 de sua população, reconhece também a dor das “mulheres de conforto” através desses monumentos.

O Japão não aceitar a estátua de Busan seria uma forma de não reconhecer os erros do passado?

Outro ponto que também mostra a postura questionável do Japão é a questão dos livros didáticos. O Japão retirou dos livros didáticos as referências às “mulheres de conforto”. Em 1997, 7 livros abordavam o assunto, e devido à pressão de alguns grupos, em 2012 somente 1 deles citava o tema. Assim como o Japão resiste em transmitir para as novas gerações os crimes de guerra cometidos em Okinawa, como os “suicídios em massa” (polêmica que será abordada em outro post), a história das “mulheres de conforto” está sendo silenciada.

Mas, se há aqueles que resistem em reconhecer os crimes, há aqueles que fazem um trabalho formidável para que a história não se apague. O WAM (Women’s Active Museum on War and Peace) é um pequeno museu que realiza exposições e pesquisas sobre as “mulheres de conforto”, localizado em Shibuya (Tóquio). Apesar de, ao longo de seus 12 anos de funcionamento, ter sido alvo de assédio diversas vezes, em setembro de 2016 recebeu pela primeira vez uma ameaça de bomba, vinda de um grupo de extrema direita, que não se concretizou.

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WAM – Women’s Active Museum on War and Peace

Mas, apesar da postura arrogante do governo japonês, de muitos de seus políticos e de seus grupos extremistas, podemos ter esperança de que a história não será apagada. Os monumentos em Okinawa, a estátua de Busan, as ex-escravas sexuais que ainda resistem às amarguras do tempo, o WAM, o meu post neste bloguinho e as inúmeras vozes que se levantam para falar que o Japão errou (sim, e feio) são indícios de que essa luta existe. E que ela une mulheres e homens do mundo inteiro, comprometidos com o ideal de justiça., não só no Dia Internacional da Mulher, mas durante o ano inteiro. Com esse post, esperamos que o temas como este ganhem mais destaque, e que o Dia Internacional da Mulher seja mais que um mero discurso – que ele seja o reconhecimento das injustiças e o passo em direção a mundo melhor.

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Postais que eu e 3 amigas vendemos no festival da Universidade para ajudar as coreanas vítimas da exploração sexual (2013). Juntamos 30,000 yen.

 

FONTE:

Graças ao trabalho do WAM você leu esse post, escrito utilizando 2 publicações deles:

  • 「日本軍「慰安婦」問題すべての疑問に答えます」 WAM 2013
  • 「軍隊は女性を守らない 沖縄の日本軍慰安所と米軍の性暴力」WAM 2012

FOTO “Ex-mulheres de conforto” protestando em frente à embaixada do Japão:

http://www.bbc.com/news/magazine-22680705

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