Hajichi – a tatuagem da mulher okinawana

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Família Yagi

Essa é a família da minha obá – a família Yagi. Sentados à esquerda estão seus pais (os meus bisavós) e em volta, os seus irmãos (meus tios avós). E, sentados, vestidos de preto, estão os avós dela – os meus tataravós. Minha obá está de pé entre eles, a quem ela era muito apegada. Ela sempre me conta histórias da família e tem muitas fotos guardadas, mas uma coisas ela nunca tinha me contado – que a minha tataravó tinha hajichi, a tatuagem que as mulheres okinawanas possuíam antigamente.

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Hajichi da minha tataravó

– Mas obá, por quê ela tem essa tatuagem?

– Toda obá tinha.

– Mas por quê?

– Ah, não sei, nunca perguntei.

– E quando ela veio pro Brasil, alguém falava alguma coisa dela?

– Acho que não… Nunca ouvi nada.

Falar sobre a hajichi é uma tarefa muito difícil, pois não existem mais fontes vivas – o que se sabe hoje é fruto de pesquisas anteriores e  fotos, muitas delas pouco nítidas e em preto e branco. Existem diversas hipóteses e informações às vezes divergentes; e além disso, sabe-se que havia muita variação de acordo com a região. Tudo isso faz com que escrever sobre o assunto seja uma tarefa complicada – e também desafiadora.

Origem – de onde veio a hajichi?

A hajichi existiu nas ilhas Ryukyu, possuindo diferentes nomes conforme a região.

  • Okinawa e Amami: hajichi  (ハジチ), hajiki (ハジキ), fajichi (ファジチ), pajichi (パジチ)
  • Miyako: pizukki (ピヅッキ), pizuki (ピヅキ), paatsuku (パーツク), parikku (パリック), paitsuki (パイツキ), haidzuchi (ハイヅチ)
  • Yaeyama: tiku (ティク), tishiki (ティシキ)
  • Yonaguni: hadichi (ハディチ)

Neste texto a trataremos por “hajichi” (lê-se “raditi” – como em rato, dinheiro, timão).

A origem da hajichi é incerta, mas registros de viajantes apontam que já era um costume existente no século 16. Quanto à sua extinção, também não é possível apontar com precisão, mas é bem provável que a última mulher com hajichi tenha morrido no começo da década de 1990.

Dentro do Japão, o povo ainu (região de Hokkaido) e o povo de Ryukyu são etnias que adotaram a prática da tatuagem. Olhando para outros lugares próximos, como Taiwan, Filipinas, Micronésia, Indonésia, Nova Caledônia, Polinésia, Austrália, Nova Zelândia, há vários povos que tatuavam (ou tatuam) seus corpos, o que favorece a hipótese de que o costume tenha vindo do sul, considerando a longa história de comércio e intercâmbio que existiu na região. Fuyuu Iha, considerado o pai dos estudos okinawanos, também acreditava que a hajichi tenha suas origens em costumes da Polinésia e Indonésia.

Porém, não se sabe quando a hajichi surgiu nas ilhas Ryukyu. É provável que tenha começado como uma forma de distinção das mulheres nobres com funções religiosas, sendo copiado depois por outras mulheres, o que acredita-se que tenha acontecido somente na era moderna. Já no início da Era Meiji (1868), provavelmente todas as mulheres, desde as prostitutas até as comerciantes, possuíam hajichi.

Há uma outra hipótese, segundo a qual, com a extinção do Reino de Ryukyu (1879) e a migração da classe samuree (nobreza) e sua cultura para o interior, tenha ocorrido também a migração dos tatuadores para partes mais longínquas, levando seu trabalho e espalhando o costume da hajichi.

Objetivo – por quê as mulheres marcavam seus corpos?

De acordo com as pesquisas, havia uma variedade de justificativas para as mulheres fazerem a hajichi. A versão mais conhecida (na ilha principal de Okinawa) é a de que as mulheres faziam a hajichi para mostrar que eram casadas. Entretanto, uma pesquisa realizada pelo Museu de História de Yomitan a partir de entrevistas com mulheres da ilha principal encontrou razões diferentes, como:

  • Se não fizesse, se afastaria de sua terra natal e seria levada para Yamato (Japão): 47%
  • Se não fizesse, não iria para o céu depois da morte: 15,2%
  • Todas fazem (costume): 18%

Já na ilha de Miyako, o resultado foi diferente:

  • Ingresso para o mundo de lá (depois da morte): 36,5%
  • Estética: 14,2%
  • Travessura: 12,5%
  • Costume: 10,4%

Ainda de acordo com essa pesquisa, a idade com que fizeram as tatuagens varia da seguinte forma:

  • Menos de 10 anos: 31%
  • 11 a 14 anos: 15,3%
  • Não sabe: 18%

Em relação à conclusão da tatuagem, há os seguintes dados:

  • Terminou o desenho antes de casar: 30,5%
  • Terminou o desenho depois de casar: 12,5%
  • Começou antes do casamento e não terminou: 55%
  • Começou depois do casamento e não terminou: 2%

Assim, é possível afirmar que quase metade das mulheres (46%) iniciaram a hajichi antes de completarem 15 anos, sendo portanto muito jovens. Além disso, 85% das mulheres disseram ter iniciado a hajichi antes do casamento (finalizando o processo depois ou não). Em pesquisa realizada em outras ilhas, cerca de 70% das mulheres fizeram a tatuagem antes dos 18 anos.

Ao fazer a hajichi, a menina passava a ser reconhecida como mulher perante sociedade. Também era um rito de passagem que marcava a iniciação para o casamento – uma vida independente e a construção de uma nova família.

Existem poemas (ryuka), que demonstram que as meninas esperavam com ansiedade tal rito. Acredita-se que não somente as meninas, mas também seus pais e as mulheres casadas tenham expressado seus sentimentos através desses poemas:

Mãe, mãe… Pai, pai…

Me dêem um copo de arroz

Vou pedir uma tatuagem

Quero fazer uma tatuagem

(Ryuka de Okinoerabu, atualmente faz parte das ilhas Amami, província de Kagoshima)

Casar, só uma vez

Morrer, só uma vez

O desejo de ter uma tatuagem na mão

É para o resto da vida

(Ryuka de Tokunoshima, atualmente faz parte das ilhas Amami, província de Kagoshima)

Procedimento – como era feita a hajichi

Nas ilhas de Ryukyu, as tatuagens geralmente eram feitas no dorso da mão, nos dedos e no antebraço. Entre os ainu, era costume tatuar a parte em volta da boca, as mãos e os pulsos.

Para imprimir a hajichi na pele, eram utilizadas agulhas de costura ou de bambu. Misturava-se tinta com sakê e se pintava o desenho. Há relatos de casos em que eram usadas mais de 20 agulhas de uma vez, que podiam ser unidas formando um círculo ou em fileira.

A prática da hajichi não se tratava somente de fazer desenhos aleatórios em azul escuro; a região era determinante do padrão a ser reproduzido. Alguns desenhos eram círculos, flechas e os sinais de “x” e “+”, que eram símbolos de proteção.

Por serem relativamente afastadas e com algumas características próprias, é possível definir de modo geral alguns padrões para cada ilha ou região. Porém, não se sabe quais os motivos para as diferenças e quando elas começaram. Mesmo que haja pequenas variações, é possível afirmar que os desenhos foram transmitidos de geração a geração dentro de certa área.

Os desenhos também eram reflexo do status social. Quanto mais longe da cidade, mais grosseiros eram os traços. Mulheres da classe alta tinham o desenho com linhas finas e modestas. Mulheres de classe baixa possuíam padrões com linhas grossas e figuras grandes. Mesmo com essas diferenças, pode-se dizer que o costume do hajichi se estendia a todas as mulheres.

Quem fazia a hajichi era uma pessoa conhecida por “shijutsushi” (cirurgião) ou hajichaa. O trabalho, semiprofissional, era remunerado. Mas também havia pedidos baseados nas relações de amizade, nas quais o trabalho era realizado de graça. De acordo com a pesquisa do Museu de Yomitan, sobre o pagamento, muitas não se lembram ou relatam que não houve pagamento.

Proibição – por quê a hajichi foi extinta?

No fim do século 19, o governo Meiji visava fortalecer as bases de seu Estado Nação, voltando os olhos para fora. Com o objetivo de unificar a nação, planejou a uniformização e a “japonização” dos costumes de Okinawa. Competindo com as nações desenvolvidas da Europa pelo controle da Ásia, o Japão visava demonstrar a força e estabilidade de seu poder central, e por isso tomou várias medidas emergenciais, como o recrutamento de soldados e a reforma na educação.

Assim, houve a tentativa de exterminar a cultura do povo de Ryukyu. O governo Meiji visava impor um modelo de cidadão japonês – aquele reconhecido pelo estado, com uma cultura única e comum a todos. Tendo sua cultura regional extinta, os novos cidadãos teriam o mesmo corpo (extinção da tatuagem), a mesma língua padrão (com a proibição do uchinaaguchi) e os mesmos costumes. Também foram proibidas as práticas religiosas.

O uso da hajichi foi proibido oficialmente em 1899 (Meiji 32), com a “Ordem de Proibição de Tatuagem”. Entretanto, alguns anos antes, em 1880 (Meiji 13) já havia sido expedido um artigo contendo várias proibições com o objetivo de “melhorar os costumes”. Nesse sentido, a hajichi não era considerado apenas um “costume étnico”, mas também um comportamento desviante da ordem pública e moral da época. Porém, com a fiscalização fraca, não acabou imediatamente.

hajichi1

1990, Miyako-jima

Como a recém-formada província de Okinawa reagiu? Curiosamente, muitos okinawanos também reconheceram a necessidade da japonização. No mesmo ano em que a hajichi foi proibida, na vila de Kijoka, em Ogimi (região norte da ilha), as autoridades se reuniram e decidiram tomar providências para a reforma dos costumes. Foram proibidas as seguintes práticas: cantar em voz alta na vila, tocar sanshin na rua e ter hajichi.

Na época, o jornal Ryukyu Shimpo passou a ter maior cuidado com a escrita e os modos e citou a necessidade de policiar quem infringisse as regras, mesmo reconhecendo a dificuldade de se abolir costumes antigos. Depois de alguns dias, o jornal chegou a publicar os nomes de 3 cirurgiões que teriam infringido as regras e 2 moças que tatuaram a hajichi. Uma carta de um leitor, publicada no jornal, diz que o motivo da proibição não surtir efeito é a existência de muitos cirurgiões, que estavam espalhando mentiras, como a de que, caso não possuíssem hajichi, as mulheres seriam levadas para outras províncias ou seriam levadas para serem esposas de soldados. O leitor ainda diz que a fiscalização havia se tornado fraca e as pessoas estavam fazendo os procedimentos durante a noite, longe dos olhos dos vizinhos, e que desejava um controle maior.

Não só em Okinawa e no Japão a prática da hajichi estava sendo policiada – com a imigração as mulheres tatuadas também se depararam com dificuldades. Há um relato segundo o qual duas mulheres com hajichi estavam num navio. Mulheres de outras províncias, envergonhadas por mostrar aos estrangeiros japonesas com essa aparência, obrigaram as okinawanas a se trancarem no quarto e as proibiram de subir ao convés, até a chegada a Honolulu. Outro caso aconteceu nas Filipinas, quando espalhou-se o boato de que havia três okinawanas com hajichi, gerando desconforto entre os outros imigrantes japoneses. Após uma reunião convocada pela Associação Okinawa local, as três foram enviadas de volta à terra natal.

No início do século 20, a prática do hajichi já não era comum. Já na época da guerra, quando minha obá era criança, a tatuagem era marca das mulheres mais velhas. Atualmente só restam fotos, informações escassas e memórias que algumas pessoas guardam de suas avós. Infelizmente, como tantos outros aspectos da história das mulheres, o costume da hajichi não foi bem documentado (ou os escritos não sobreviveram ao tempo). Mas, felizmente, mesmo que não tenha muitas informações sobre a história ou sobre a hajichi da minha tataravó, eu tenho a foto dela. Apesar de não saber muita coisa, que legal que é olhar as fotos e ver a ali um pouco da história das nossas antepassadas, as mulheres de Ryukyu.

hajichi2

1990, Gushikawa

 

Fonte:

「琉球の記憶 HAZICI」 山城博明・波平勇夫 新星出版 2012年

「ハジチのある風景」 比嘉清眞写真展 那覇市歴史博物館 2010年

 

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