O voto feminino e a mulher na política de Okinawa no pós-guerra

Depois da guerra, a sociedade okinawana sofreu bruscas mudanças. Uma delas foi a concessão do direito ao voto às mulheres, que exerceram papel fundamental na reconstrução de Okinawa no  pós-guerra.

Antes da 2ª Guerra Mundial, no Japão, somente tinham direito ao voto os homens acima de 25 anos e somente podiam concorrer aqueles com mais de 3o anos. As mulheres não podiam votar e nem ser votadas. Em Okinawa não era diferente.

Porém, a participação do Japão na 2ª Guerra Mundial trouxe mudanças radicais nas sociedades japonesa e okinawana. Okinawa havia sido palco da sangrenta Batalha de Okinawa, única batalha terrestre (corpo a corpo) no território japonês, na qual 1/3 da população perdeu a vida. Um de seus efeitos foi a trágica modificação da pirâmide populacional, com a diminuição de homens jovens, que foram recrutados para lutar e morrer na guerra.

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Pirâmide populacional de Okinawa, antes e depois da guerra

Diante desse cenário, as mulheres tiveram grande importância na reconstrução de Okinawa, a começar pelo sustento da família em paralelo à criação dos filhos, mas também abrangendo outras áreas, como a política, como mostraremos a seguir.

O período do pós-guerra começou com as pessoas vivendo nos campos de concentração do exército norte-americano. À medida que os civis iam sendo encontrados e os soldados japoneses sendo rendidos, eram levados para esses acampamentos para os sobreviventes de guerra, onde recebiam comida, roupa e tratamento médico por parte dos norte-americanos.

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Alimentação no campo de concentração (Foto: Exposição)

Foi também nesses campos de concentração, onde começaram a ser organizadas as primeiras eleições da era da ocupação norte-americana. Houve uma discussão entre a administração do exército norte-americano e os conselheiros de Okinawa sobre a questão da concessão do direito ao voto às mulheres. Mais da metade dos conselheiros okinawanos julgaram como prematura a participação feminina na política. Porém, o tenente-coronel Murdock promulgou uma ordem que determinava que, além dos homens, as mulheres maiores de 25 anos também poderiam votar e disputar cargos nas eleições.

Dessa forma, no dia 20 de setembro de 1945, foram realizadas eleições para prefeitos (市長) e vereadores (市会議員) em 16 regiões da ilha principal de Okinawa, incluindo os campos de concentração de Ishikawa, Taira e Chinen. Pela primeira vez as mulheres de Okinawa puderam votar, 6 meses mais cedo que as mulheres da ilha principal do Japão.

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Mulher votando na eleição para vereador (Foto: Exposição)

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Mulher votando na primeira eleição do pós-guerra (Foto: go2senkyo.com)

Em 1948, nas seguintes eleições para prefeitos e vereadores, a idade mínima para votar diminuiu de 25 para 20 anos. Ao longo do ano, 12 mulheres foram eleitas para o cargo de vereadoras (議員) em diversas regiões, pela primeira vez na história. Quase todas elas eram professoras e líderes de fujinkai (associações de mulheres) antes da  eclosão da guerra.

Conheça a história de algumas delas:

Setsu Taketomi武富セツ–  Shuri

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Setsu Taketomi (Foto: Exposição)

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Setsu Taketomi, a mulher mais votada (Foto: Museu de História de Naha)

A mulher com mais votos foi Setsu Taketomi, nascida em 1883 na cidade de Shuri (que faz parte de Naha, atualmente). Setsu era uma professora que nutria uma paixão pela sua profissão. Antes da guerra, chegou a representar Okinawa num encontro nacional de professoras, além de ter sido também vice-presidente da Associação Japonesa de Mulheres (大日本婦人会). Logo após a guerra, foi líder da Associação de Mulheres de Shuri, sendo eleita vereadora em 1948 e tornando-se a mulher mais votada. Naquela época, as provisões distribuídas pelos norte-americanos apresentavam alguns problemas, como pequenas pedras e dejetos no arroz e a interrupção no fornecimento. Setsu se colocou à frente para reivindicar ao exército norte-americano a melhora da qualidade dos alimentos, obtendo êxito. Nos anos 50, depois de ter exercido cargos políticos, Setsu voltou a se dedicar à area da educação, estudando na recém-criada Universidade de Ryukyu e trabalhando na Escola de Ensino Médio de Shuri (首里高等学校) até os 73 anos.

Shizu Makishi -(牧志シズ)-  Itoman

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Shizu Makishi (Foto: Exposição)

Shizu Makishi nasceu em 1907 em Oroku (atual Naha). Começou trabalhando na Escola de Ensino Primário de Oroku (小禄尋常高等小学校), passando depois para as escolas de Makabe e Tomigusuku. Quando a guerra estava prestes a eclodir em Okinawa e o governo da província ordenou a evacuação de crianças da ilha, Shizu deveria viajar para a ilha principal a bordo do navio Tsushima-maru, acompanhando um grupo de alunos. Pouco antes do embarque, houve mudanças e Shizu não embarcou. Durante a viagem, o navio afundou e o fato não foi divulgado pelas autoridades; e sobrou para Shizu enfrentar críticas de pais desesperados. Depois que a guerra terminou, Shizu trabalhou num orfanato para crianças que perderam os pais na guerra, no campo de concentração de Ishikawa. Nas eleições de 1948, com o apoio da Associação de Mulheres de Itoman, lançou sua candidatura. Em 1954, Shizu se tornou chefe da Seção de Mulheres e Jovens (婦人少年課) do Governo de Ryukyu, lidando com assuntos referentes a segurança e condições de trabalho de jovens e mulheres.

Kiku Oyama(大山キク)-  Miyako

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Kiku Oyama (Foto: Exposição)

Kiku Oyama nasceu em Shimozato (Miyako) em 1896. Em 1916 se formou, e durante quase 30 anos trabalhou como professora de escola primária em Miyako. Casou-se em 1918 e seu marido morreu 4 anos depois. Ao mesmo tempo em que cuidava de 2 filhos, dedicou-se à sua profissão. Em 1928 participou de um Encontro de Professoras do Japão, em Tóquio, onde teve contato com a educação liberal, que a influenciaria mais tarde. Em 1944, com a aproximação da guerra, foi a Taiwan com o grupo de evacuação, retornando em 1945. Diante das dificuldades do pós-guerra, Kiku chamou às mulheres à ação: “agora o importante é as mulheres se erguerem”, objetivando a purificação da sociedade e a ascensão da posição das mulheres. Assim, criou o Grupo de Mulheres de Miyako. Em 1948 foi eleita vereadora de Hirara e em 1950 criou a Associação de Mulheres de Miyako. Dona de lemas como: “Conexão direta entre a cozinha e a política”, “Libertando as mulheres do pensamento e dos costumes feudais”, Kiku foi uma das pioneiras no movimento de libertação das mulheres de Miyako no pós-guerra.

Fumi Miyagi宮城文)-  Ishigaki

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Fumi Miyagi (Foto: Exposição)

Fumi Miyagi nasceu em 1891 em Tonoshiro, Ishigaki. O pai de Fumi acreditava que as mulheres deveriam escolher seu próprio caminho, podendo ir além das tarefas domésticas e dos cuidados com as crianças. Começando na escola primária de Tonoshiro, dedicou-se à educação durante 20 anos. Em 1944 foi à Taiwan com o grupo de evacuação, voltando no ano seguinte. Quando foi eleita em 1948 tornou-se, sobretudo, porta-voz do povo, tratando de assuntos como impostos, por exemplo. Em 1949 participou da criação da pré-escola de Arakawa, tornando-se diretora. Inseriu na educação músicas e danças típicas da região de Yaeyama. Em seus últimos anos de vida, dedicou-se à pesquisa da cultura da região, publicando um livro sobre o modo de vida em Yaeyama, que ganhou o 1º Prêmio Fuyuu Iha.

Kimiyo Tamashiro(玉城喜美代)-  Yonaguni

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Kimiyo Tamashiro (Foto: Exposição)

Kimiyo Tamashiro nasceu em 1906 na ilha de Yonaguni. Terminou o colégio em 1919 e queria estudar na ilha principal de Okinawa para se tornar professora. Porém, tinha muitos irmãos e não pôde prosseguir os estudos, sendo obrigada a trabalhar numa fábrica de processamento de katsuobushi (atum-bonito). Em 1929 foi à Taiwan para aprender alguma profissão que pudesse exercer pelo resto de sua vida. Em Taipei conseguiu estudar e obter a licença para atuar como enfermeira e parteira. Até o término da guerra trabalhou em hospitais de Taipei, Singapura, entre outros. Em 1947 voltou para Okinawa, quando foi convidada a ser líder da Associação de Mulheres de Kubura, atuando também como parteira. Naquela época, a maioria das pessoas morava em áreas desertas, de difícil acesso e sem luz, além das montanhas ou no meio de plantações, condições que Kimiyo enfrentava para fazer os partos. Numa dessas vezes, Kimiyo caiu do cavalo – único meio de transporte disponível – e ficou ferida gravemente. Recuperada, em 1948 se tornou vereadora de Yonaguni, focando na questão das condições sanitárias e na área da saúde de mulheres e crianças. Em 1952 mudou-se para Ishigaki, onde abriu uma maternidade, além de colaborar com a criação de postos de saúde com diversos serviços como atendimentos e orientações para grávidas, vacinação e acompanhamento médico para bebês, trabalhando para a conscientização da população local sobre a importância da saúde materna.

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Kimiyo Tamashiro, quando trabalhava em Singapura (Foto: Exposição)

As outras mulheres eleitas em 1948 foram:

Nago – Teruko Arakaki (新垣輝子)

Itoman –  Fumi Nagata(長田文)

Hirara – Aiko Tomori(友利アイ子)

Ishigaki – Tsurue Makishi(牧志つるゑ)

Yonaguni – Kimiyo Tamashiro(玉城喜美代), Kikuno Miyazato(宮里キクノ), Kiyo Yonahara(与那原キヨ)

Kadena – Tsuru Majikina(真境名ツル)

Quando vemos Okinawa hoje, é difícil imaginar como foi o trabalho de reconstrução logo após a guerra. O exército norte-americano, ocupando Okinawa, foi responsável por suprir as necessidades mais imediatas da população, como alimentação e remédios. Também começaram a reerguer as instituições por eles destruídas, começando pelas escolas e orfanatos improvisados nos campos de concentração e as instituições políticas. Os Estados Unidos trouxeram a democracia para Okinawa, como vimos acima, mas ao mesmo tempo, também cometeram injustiças, como a aquisição forçada de terras particulares.

O fato é que, em toda a história, mas principalmente no momento que Okinawa mais precisou, as mulheres estavam lá, lutando pela sua sobrevivência e de sua família e provocando mudanças na sociedade – trazendo seus anseios, reclamações e demandas. Por isso, devemos lembrar de seus feitos e de sua lição mais importante: já faz muito tempo que o lugar da mulher é na política e onde mais ela quiser.

Fonte:

O texto e as fotos marcadas como “Fonte: Exposição” são da Exposição “Okinawa no ima wo kizuita josei” 「沖縄の今を築いた女性」(Naha, junho de 2014).

Fotos:

http://go2senkyo.com/articles/2016/06/01/19067.html

http://www.rekishi-archive.city.naha.okinawa.jp/archives/item3/18630

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