Shiimii – um piquenique no cemitério

Muitas pessoas já me perguntaram se em Okinawa as pessoas ainda se importam com as tradições ligadas ao culto aos antepassados, que muitas famílias uchinanchus do Brasil ainda preservam. Na minha opinião, sim. Apesar de alguns aspectos culturais, como o uchinaaguchi, estarem se perdendo por lá, outros, como aqueles ligados à espiritualidade, constituem uma parte importante do dia-a-dia dos okinawanos, tanto jovens quanto os idosos.

Um exemplo é o shiimii (シーミー ou 清明祭), evento celebrado no mês de abril (que corresponde ao mês de março no calendário lunar). A data tem origem na China, onde as pessoas costumam visitar os túmulos. Em Okinawa, o shiimii é como um divertido piquenique em frente aos túmulos.

Na época em que morava em Okinawa (2014) fui convidado pela minha família a participar do shiimii. O meu tio que mora lá é primo do meu avô e ambos carregam o sobrenome “Higajo”. Saí de manhã, de Shuri, e me dirigi a Okinawa-shi (Koza), onde meu tio e sua família moram. De lá nos dirigimos à ilha de Miyagi-jima (Uruma-shi), local de origem de nossa família.

Depois de meia hora num carro cheio de gente, chegamos à uma região da ilha de Miyagi-jima onde se concentram vários túmulos. Em Okinawa, não existem muitos cemitérios – vários túmulos se encontram em meio às casas ou então, reunidos mas sem uma divisão explícita de onde termina o lugar dos vivos e começa o dos mortos.

Em Miyagi-jima, o túmulo da minha família é novo, foi construído em 2002. O antigo se encontra em meio às montanhas, num lugar onde os mais velhos se lembram mas não vão mais. Minha tia disse que o túmulo antigo ficava num lugar de difícil acesso, na mata fechada, cheia de cobras. O atual fica numa região elevada também, mas que dá para chegar facilmente de carro.

Ao todo foram 5 carros, cheios de parentes – muitas crianças. Um tio tinha vindo de Tóquio, numa oportunidade rara de reunir toda a família. O tio mais velho descansava, enquanto a tia e outros limpavam o túmulo e faziam os preparativos – colocar flores, desembrulhar a comida, estender a lona e armar a barraca. As crianças brincavam e os cachorros ficaram ali, amarrados à arvore observando tudo muito atentos.

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Quando tudo ficou pronto, a comida foi colocada em frente ao túmulo e todos juntaram as palmas da mão e rezaram. Enquanto esperávamos os antepassados desfrutar do banquete, sentamos sobre a lona verde e cobertos pela barraca, conversamos, protegidos do sol forte.

Por fim, chegou a hora dos vivos – a comida foi distribuída sobre a lona. No jūbako (a caixa quadrada) havia comida mais tradicional, como tofu, bacon, kamaboko e kombu, que contrastava com os pratos de papel, os sucos de caixinha e comidas como sanduíches, inarizushi, salsicha, almôndegas e cheesecake, que todos comeram com gosto.

E logo as crianças já levantaram e foram brincar de beisebol e bolinha de sabão. Havia muita gente, que conversava, descansava, se divertia – como num piquenique convencional. Aliás, era um piquenique normal, tirando o fato de que foi realizado num cemitério, que é o que causa estranhamento em nós, brasileiros.

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Depois, todos arrumaram e limparam tudo rapidamente. E nos despedimos. Os parentes foram para casa, já que muitos moram em outras cidades. Foi um dia interessante, pois vivenciei um costume que não é muito conhecido pelos uchinanchus do Brasil. Também pude conhecer os parentes que vieram de longe, e passar um dia agradável com aqueles que já conhecia.

Minha tia me levou para passear mais um pouco pela ilha. Hoje, a ilha de Miyagi-jima (além de Hamahiga, Ikei, Henza) é ligada por uma estrada (chamada Kaichū dōro) à ilha principal, mas antigamente só se podia fazer a travessia de barco ou quando a maré estava baixa. Não é tão longe, mas a ilha está sendo abandonada pelos jovens, que se mudam para outras regiões em busca de emprego. Porém, os túmulos continuam lá com a história dessas famílias, e o shiimii é uma data de volta à ilha e, consequentemente, às origens.

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Ilha de  Miyagi-jima

Por isso, senti que os eventos relacionados ao culto aos antepassados ainda estão muito vivos em Okinawa. Eles envolvem todas as gerações da família e a sociedade inteira, sendo noticiada até na TV a chegada da época do shiimii. Apesar de ter narrado aqui o shiimii da minha família, creio que em outras famílias não é muito diferente. Aqui no Brasil, me disseram que não fazemos o shiimii porque seria muito estranho fazer piquenique no cemitério. Além disso, já temos uma data para visitar os antepassados, que é o Dia de Finados. Se você tiver oportunidade, quando for a Okinawa, participe do shiimii!

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