História dos cinemas em Okinawa

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Em Okinawa, se um dia alguém te levar para ver um filme no cinema, provavelmente o local escolhido será algum moderno shopping. Talvez o novíssimo Aeon de Rycom, ou o de Haebaru. Ou o Main Place de Omoromachi ou o Mihama 7 Plex de Chatan. Porém, Okinawa também possui seus “cinemas alternativos”, que resistiram ao tempo e nos contam a história da era de ouro do cinema – como o “cult” Sakurazaka (uma versão okinawana da Reserva Cultural e afins) e dois cinemas de filmes adultos – o Shuri Gekijo e o Koza Ryueikan.

Antigamente, antes da popularização da televisão, ir ao cinema era um dos principais hobbies. Os shopping centers ainda não haviam se proliferado, e os cinemas se localizavam nas ruas das cidades – como em São Paulo. Porém, em Okinawa, a história dos cinemas possui uma particularidade – eles foram um importante elemento na reconstrução do pós-guerra.

Antes da Segunda Guerra Mundial, havia alguns cinemas em Okinawa, como o Taishō Gekijō e o Asahi-kan, na cidade de Naha. Além de filmes, havia apresentações de “shibai “(teatro). Porém, com os Bombardeios de 10 de outubro de 1944 e com a Batalha de Okinawa, todos foram destruídos.

Alguns dias após o término da guerra, a ocupação norte-americana organizou os primeiros grupos de teatro, que reuniram renomados artistas (de artes tradicionais como kumiodori, karatê, danças de Ryukyu, e outros artistas, como atores e comediantes). Eram grupos itinerantes, que faziam apresentações em diversos campos de concentração para os sobreviventes da guerra, como forma de proporcionar um conforto para os corações feridos pelas perdas e sofrimentos causados pela batalha

Logo também começaram a ser exibidos filmes. Shikichi Miyagi (conhecido como Suyaa Saburo) era um dos karatecas mais importantes do pré-guerra. Trabalhava para um general norte-americano e por isso tinha permissão para ir a qualquer lugar da ilha. Acabou conhecendo e se interessando por filmes norte-americanos e pediu autorização para exibi-los nos campos de concentração. Teve êxito, e levando um projetor e alguns rolos de filme em um caminhão, passou a rodar os campos do norte e centro da ilha. Assim, os primeiros filmes do pós-guerra foram exibidos em “cinemas” improvisados e itinerantes.

Na mesma época em que as pessoas começavam a deixar os campos de concentração, artistas começaram a organizar shows de entretenimento. Teatros provisórios eram montados em estacionamentos de caminhões militares e as estruturas deviam ser desmontadas após os espetáculos, para que não atrapalhasse o fluxo dos veículos. O público sentava sobre bancos feitos de latas vazias com tábuas de madeira compensada por cima.

Naquela época, os cinemas eram ao ar livre e por isso as exibições só podiam acontecer durante a noite.

Um desses teatros se localizava em Matsuo (atual cidade de Naha, na região da Avenida Kokusai Doori), num espaço onde não havia tráfego de caminhões. Por isso, não precisava ser desmontado e passou a sediar também concursos e exibições de filmes, tornando-se um espaço fixo com o nome de “Chuō Gekijō”, inaugurado oficialmente em 1947. Um dos fundadores foi o professor Genkai Nakaima, pai do ex-governador de Okinawa de 2006 a 2014, Hirokazu Nakaima.

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Reprodução do Chuō Gekijō

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Reprodução do Chuō Gekijō

Mais ou menos nessa época, Hajime Takara começava a construir o Ernie Pyle Kokusai Gekijō. Diferentemente do Chuō Gekijō, o objetivo deste era exibir somente filmes, tornando-se um cinema propriamente dito. Takara negociou com o exército norte-americano para que lhe transferissem uma área em Makishi (Naha, na região da Avenida Kokusai Dōri) para que montasse ali seu cinema. Teve êxito e o negócio começou a funcionar em 1948, ganhando um telhado só no ano seguinte. O nome escolhido foi “Ernie Pyle”, nome de um jornalista e correspondente de guerra norte-americano morto na Batalha de Okinawa.

 

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Ernie Pyle Kokusai Gekijo

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Ernie Pyle Kokusai Gekijo (1951)

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O Ernie Pyle existia no local onde hoje é o Tenbusu (Kokusai Dori)

Tanto Shikichi Miyagi quanto Hajime Takara abriram empresas na área do cinema e obtendo sucesso, foram seguidos por outros. Em 1950 surgiram os primeiros cinemas parecidos com os que conhecemos hoje: o Okinawa Gekijō, uma construção de madeira de 2 andares e o Sekai Kan, construído em concreto, ambos em Naha.

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Okinawa Gekijō (1950?)

Naquela época, que tipo de filmes eram exibidos?

O exército norte-americano distribuía filmes para as empresas, mas estes eram mais próximos de uma propaganda do ideal americano de democracia do que propriamente filmes de entretenimento. Não faziam tanto sucesso.

Por isso, as empresas passaram a contrabandear rolos de filmes japoneses das ilhas Yaeyama e Miyako (menos destruídas pela guerra), de Taiwan e de Kyushu (região sul do Japão). Porém, geralmente esses filmes eram antigos e danificados pelo tempo, com as falas e os sons por vezes inaudíveis.

A solução encontrada foi passar o filme sem som utilizando o “benshi”, pessoa que se posicionava ao lado da tela narrando e comentando o filme. Apesar de parecer estranho atualmente, esses profissionais tinham grande fama e destaque na época.

Mas logo foram feitas negociações com empresas cinematográficas japonesas. Shikichi Miyagi, às ordens do exército norte-americano, viajou para Tóquio a fim de estabelecer contratos para que as empresas japonesas fornecessem filmes para Okinawa.

Os cinemas se proliferaram por Okinawa. Em 1953 existiam 38 cinemas, e considerando aqueles onde também eram encenadas peças de teatro (shibai) a quantidade chegava a 52. O auge foi nos anos de 1959 (92 cinemas) e 1960 (120 cinemas!). Além da região da Kokusai Dōri, havia cinemas em Shuri, Oroku, e nas outras cidades, como Itoman, Uraose, Okinawa-shi, Ginowan, Uruma e outras.

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Futenma Ryūeikan, na cidade de Ginowan (1954)

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Local onde se localizava o Futenma Ryūeikan

A partir dos anos 60, o cinema começou a entrar em decadência, pois chegou a televisão. A Okinawa Terebi estreou em 1959, e a emissora da estação de rádio Ryukyu Hōsō foi inaugurada no ano seguinte. Os noticiários, novelas e programas de entretenimento entraram nas casas do público okinawano. A era de ouro do cinema terminou com o fechamento do Ernie Pyle Kokusai Gekijō (que já havia mudado o nome para Kokusai Ryūeikan), em 1970.

No início dos anos 70, a indústria cinematográfica japonesa também enfrentava dificuldades e começou a buscar outros nichos de mercado. Os filmes ocidentais já ocupavam mais da metade do mercado cinematográfico do Japão. Em 1971, a empresa Nikkatsu começou a produzir filmes pornôs. Apesar das acusações de obscenidade, o empreendimento fez sucesso. Alguns cinemas de Okinawa passaram a exibir somente esses filmes adultos. Nos anos 80, muitos cinemas de rua fecharam as portas e atualmente os grandes cinemas existentes encontram-se dentro dos shopping centers.

Atualmente, fora do circuito dos shopping centers existe o Sakurazaka Gekijō, perto da Kokusai Dōri. Sua história remonta ao ano de 1952, quando foi inaugurado com o nome de Sangoza Gekijō. No ano seguinte foi comprado e tornou-se o Sakurazaka Ryūeikan. Funcionou até 2005, quando tornou-se o Sakurazaka Gekijō como conhecemos hoje. Além de exibir filmes alternativos, possui uma lojinha de livros, discos e produtos relacionados às artes em geral, além de um simpático café. Lá também são realizados diversos eventos, cursos e shows musicais. É um dos únicos cinemas que sobreviveu com sucesso às inevitáveis mudanças do tempo e dos hábitos dos okinawanos.

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Sakurazaka Gekijo atualmente

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Sakurazaka Gekijo atualmente

Fonte:

「沖縄まぼろし映画館」 平良竜次 (著), 當間早志 (著) ボーダーインク

Fotos antigas:

http://tokkan-kozo.com/bind3-eikoden/index.html

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