O breve amor de Otodaru e Matsugani

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Antigamente, existia na vila de Katsuren uma bela mulher chamada Otodaru. Homens de outras vilas, ao ouvir os boatos, vinham de longe pedi-la em casamento. Ela, porém, recusava todos os pretendentes.

Na vila de Gushichan (ou Gushikami), vivia um jovem chamado Matsugani. Num dia quente de verão, Matsugani foi à fonte matar sua sede e lá se deparou com vários viajantes, que comentavam sobre a beleza de Otodaru.

Matsugani, ouvindo a conversa, pensou:

“Se ela é tão bela assim, gostaria de encontrá-la pelo menos uma vez”.

Mas os viajantes disseram que ela nunca aceitaria encontrar-se com ninguém.

Então, Matsugani resolveu consultar uma sábia senhora de sua vila. Como poderia encontrar-se com a bela Otodaru?

A senhora lhe disse:

– É dever das moças ir à fonte buscar água, e ela não deve ser exceção. Sugiro que você a espere na fonte mais próxima de sua casa.

Por ser muito distante, Matsugani logo subiu em seu cavalo e partiu para Katsuren, chegando a seu destino ao entardecer. Lá esperou Otodaru, que logo surgiu carregando uma tina em sua cabeça. Como diziam os boatos, era realmente bonita e num instante Matsugani se apaixonou.

Já estava anoitecendo e havia várias mulheres ali na fonte. Sem se dar conta da presença delas, Matsugani caminhou em direção a Otodaru e disse:

– Eu sou Matsugani de Gushichan, você não gostaria de me encontrar pelo menos uma vez?

Otodaru, sem expressar nenhuma reação, apenas o olhou fixamente e disse:

– Então, quando duas portas se tornarem uma e a água veloz do rio parar, coloque uma sela num cavalo de duas cabeças e venha me visitar.

No caminho de volta para Gushichan, Matsugani foi pensando no que Otodaru havia dito, mas não conseguia entender o enigma de jeito nenhum. Chegou em casa mas as palavras da jovem não lhe saíam da cabeça e por isso não conseguiu dormir.

Então, voltou a consultar a senhora de sua vila.

– O que significa “venha me visitar quando duas portas se tornarem uma e a água veloz do rio parar e coloque uma sela num cavalo de duas cabeças”?

A senhora, impacientemente, lhe disse:

– Se você não consegue nem entender esse enigma tão simples, melhor você desistir de Otodaru.

– Passei a noite inteira pensando, mas não consegui decifrá-lo. Por favor, me diga! – disse Matsugani, implorando para a senhora.

– Já que não tem jeito, vou lhe explicar. Duas portas significam as pálpebras, que se tornam uma quando os olhos se fecham. Ou seja, quando se dorme. A água veloz do rio não pára, mas um rio parado seria silencioso como as altas horas da noite.

Matsugani escutava com atenção. A senhora prosseguiu:

– Colocar a sela num cavalo de duas cabeças significa colocar a sela numa égua prenha, pois num mesmo corpo estão dois animais. Para proteger o filhote, ela anda com suavidade. Por isso, vá encontrar Otodaru quando todos estiverem dormindo altas horas da noite, chegando silenciosamente montado numa égua prenha. Otodaru deve ter gostado de você, para ter pedido esse pedido.

Matsugani, radiante de alegria, logo providenciou uma égua prenha e partiu para Katsuren a fim de chegar de madrugada.

Em Katsuren, Matsugani encontrou todas as casas com luzes apagadas, com exceção de uma – a que ele sabia ser de Otodaru. Ele amarrou a égua numa árvore e entrou na casa. Diante da porta, Matsugani se deparou com uma pequena faca, um bambu e uma tigela de arroz. Ele logo pensou:

“Aah, Otodaru deve ter pensando que por ter vindo de Gushichan estaria morto de fome, e por isso preparou o arroz para que eu coma com um hashi feito de bambu, esculpido com a faca. Que atenciosa!”

Matsugani fez um hashi com o bambu e estava comendo, quando Otodaru saiu da casa com o rosto marcado pela decepção.

– Achei que você fosse uma pessoa mais inteligente. Por favor, pode retornar para sua terra. E não venha me ver outra vez.

Matsugani, surpreso, ficou sem saber o que fazer. Sem entender a frieza de Otodaru, saiu de sua casa. No caminho para Gushichan, foi pensando no ocorrido e visitou novamente a sábia senhora.

Impaciente, a mulher lhe disse:

– Eu disse para você desistir dela. Seu estúpido, por ser incapaz de compreender um enigma tão fácil, você deixou Otodaru constrangida.

Matsugani ouvia, resignado.

– Em uchinaaguchi, a pequena faca é “shiigu”. Bambu é “daki” e arroz é “kumi”. Juntando tudo, “shiigu daki kumi”, ou seja, “me abrace logo”. Você não foi capaz de entender algo tão fácil assim e a acabou deixando envergonhada por não ter seu pedido atendido.

Ao ouvir isso, Matsugani perdeu o chão. Otodaru havia gostado tanto assim dele, e ele não percebeu.

“Que idiota”, ele pensou.

Desconsolado, Matsugani perdeu o apetite e ficou doente. Em seu leito de morte, ele fez um pedido:

– Quando eu morrer, quero ser enterrado num lugar que possa ver Katsuren, a terra de Otodaru.

Três dias depois, ele morreu. Os vizinhos, comovidos com a história, decidiram levá-lo a Katsuren. Carregando o corpo de Matsugani num “gan” (espécie de liteira para levar os restos mortais de casa para o túmulo, típica de Okinawa), deixaram Gushichan e passaram por Sashiki, Yonabaru e Nishihara, alcançando a vila de Atta, em Kitanakagusuku.

Lá, encontraram vindo da direção oposta um grupo de pessoas que também levavam um “gan”. Ao perguntarem, descobriram que ali vinha o corpo de Otodaru, que antes de morrer havia feito um último pedido:

– Estou apaixonada por Matsugani, quando eu morrer me enterrem num lugar em que possa ver sua terra, Gushichan.

Ao ouvirem a história de Otodaru e Matsugani, ambos os grupos se emocionaram.

– Infelizmente esses dois jovens não conseguiram a união nessa breve vida. Vamos enterrá-los aqui em Atta, para que fiquem juntos e possam desfrutar do amor a partir de agora.

Bem ali, onde se encontraram, havia uma grande pedra que serviria de sinalização. Ao lado dela, foram enterrados Otodaru e Matsugani. Logo, nasceram ali um pinheiro e um bambu, que cresceram juntos como se estivessem abraçados.

Algum tempo depois, os moradores da região cortaram as duas árvores e plantaram bambus ao redor do  pinheiro (“matsu”, que forma o nome Matsugani) envolvendo-o como se fosse um barril (“taru”, que forma o nome Otodaru).

Atualmente, esse local é conhecido como Atta maashirii e é patrimônio cultural da cidade de Kitanakagusuku.

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Atta maashirii, em Kitanakagusuku

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Atta maashirii localiza-se no número 13, à beira da estrada 329

Video sobre o Atta maashirii:

Obs: Há versões em que Matsugani é chamado de Tarugani e Otodaru, de Ndaru/Manabidaru.

Fonte:

「Folktales of Okinawa – 沖縄の民話」 遠藤庄治 りゅうぎん国際化振興財団

「沖縄の伝説散歩」 長嶺操・徳元英隆 沖縄文化社

Foto:

http://www.vill.kitanakagusuku.lg.jp/site/htdocs/yoran2012/precious05.html

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