O único imigrante da nossa família

Shinji Okuhama, meu oji, meu querido avô, partiu para encontrar a obá em março desse ano. Na nossa família formada por avô, avó, filhos e netos, ele era o único imigrante. O patriarca, o que falava com sotaque de uchinaaguchi. Ele sempre contava como havia conhecido a obá (nissei, que morava em Santo André):

– Tava andando na rua e viu uma moça bonita na janela.

– Mas por quê o oji, que morava em São Mateus, estava andando em Santo André??

Na verdade, como era comum na época, foram apresentados por conhecidos. Só não sei dizer se o casamento deles poderia ser chamado de miai ou não. Mas essa é apenas uma das histórias que ele me contou, provavelmente a única inventada.

Ele nasceu em Onaha (Nishihara – Okinawa) em 1940, numa família mais ou menos com dinheiro. Tinham terra e alguma coisa. O irmão mais velho deveria herdar as posses, e o plano era que Shinji se tornasse médico, pois era inteligente. Era o que o tio dele dizia. Mas veio a guerra e tudo se perdeu. O local onde moravam, Onaha, virou uma base aérea e hoje, nas palavras do oji:

– Oji morava onde construiu a Petrobras. Não tem tanque lá em Nishihara, Onaha? Era ali onde morava.

Foi na época da guerra que surgiram as dificuldades e a maior parte das histórias que o oji me contou. Sem comida, ele e outras crianças tentavam sobreviver. Quando um grande navio aportava na Península de Katsuren (White Beach), eles sabiam que os americanos jogariam um monte de restos de comida no mar, que percorreria 15km até a praia de Nishihara e se tornaria alimento para as crianças famintas da região.

As crianças também pediam “gum” (chiclete) e doces para os americanos num inglês mais ou menos:

– Guibu mi! Guibu mii!

Mas nem sempre conseguiam. Por isso inventaram seu próprio chiclete, feito de borracha extraída da árvore gajumaru. Bastava encostar uma bolinha de terra num corte feito na árvore para que o líquido fosse sugado, esperar endurecer e colocar a bolinha na água para a terra ir embora, sobrando só um “chiclete”.

– Mas oji, não era ruim?

– Era ruim, mas pra gente era bom ficar mastigando, igual chiclete mesmo.

Uma vez, o oji viu uns suprimentos caindo de pára-quedas de um avião norte-americano. Ele só observou. Depois, viu que os soldados esqueceram uma caixa na floresta; ele correu e pegou o que se tornaria uma de suas melhores aquisições:

– Esse tecido do pára-quedas é bom. Poliéster, né? Antigamente em Okinawa não tinha tecido bom assim.

Esse tecido foi trazido de navio, envolvendo a bagagem. Ele foi cortado em quatro pedaços que ainda estão por aí: um pedaço para cobrir móveis na hora de pintar a parede, outro pedaço foi doado para o Memorial do Imigrante Okinawano, em Diadema.

Oji também contou que ele e os amigos entravam escondidos nos cinemas, e uma vez o guarda os descobriu e eles fugiram correndo.

– Oji era bem umaku (levado), né? Oji não pode nem reclamar dos netos!

oji okuhama - okinawa2

Na escola em Okinawa

Depois que fui para Okinawa, passei a ter muito mais assunto para conversar com meus ojis e obás. Eu contava minhas histórias e os lugares que eu tinha conhecido. E o oji me falava sobre Onaha, sobre sua vida lá, que ele ia de bicicleta de Nishihara até Chatan trabalhar na construção do hospital americano. Por ter morado em Okinawa eu podia traçar o caminho na minha cabeça, entender como era longe e responder admirada:

– Sugoi ne, oji!!

mapa_nishihara

Nishihara, Chatan (para onde ia de bicicleta) e Katsuren (de onde vinha a comida pelo mar)

Quando tinha quase 20 anos, Shinji e sua família mudaram totalmente o rumo de suas vidas e migraram para o Brasil. Trabalharam duro na roça. Foram para a região de Itu e depois para São Paulo – primeiro para a Vila Carrão e depois para São Mateus.

oji okuhama - sorocaba3

Oji, à direita, e seu irmão mais velho

oji okuhama - sorocaba2_Fotor

Em Sorocaba

– Antigamente em São Mateus não tinha nada, só chácara.

E lá que foram criados os 5 filhos e 6 netos, com o cotidiano girando em torno da lojinha que abriram para garantir seu sustento. A obá cozinhava, o oji criava banquinhos e pequenas engenhosidades. A diversão dos netos era brincar em frente à loja, apostar corrida, se pendurar, correr, pular amarelinha, pegar as sucatas para criar coisas, desenhar, zoar a prima chata. E aos sábados, nos reuníamos para comer pão com mortadela e depois jantar.

O tempo passou e a casa de São Mateus ficou vazia. Antes de ser internado, o oji pediu para dormir lá na antiga casa. Talvez ele já soubesse que era uma despedida, mas a gente não esperava. Atravessando décadas, 3 gerações viveram ali, no legítimo lar da família Okuhama.

Quando eu morei em Okinawa, pensei muito sobre “de onde eu vim?”. Gostava muito de morar lá mas me sentia sempre deslocada e comecei a questionar essa história de “em busca das minhas raízes”. Quando meu bisavô faleceu no Brasil (2013) e eu estava em Okinawa, senti que ao tentar me aproximar de minha história, ao mesmo tempo eu havia me afastado.

E é sobre isso que eu ainda penso, agora que meu oji faleceu. Eu fui para tão longe, para o outro lado do planeta, mas grande parte da minha história também estava aqui no Brasil, na memória do oji e da obá e nas coisas que eles construíram. Ainda bem que eu voltei, sempre penso, pois pude passar mais tempo com eles antes de sua partida. Mas às vezes me arrependo por não ter perguntado mais coisas, por não ter estado mais presente.

árvore genealógica_Fotor

Árvore genealógica da família Okuhama, com início em 1708

Na última conversa com meu oji, no hospital, quando anunciaram que era hora de falar tudo o que deveria ser dito, eu fiquei do lado dele e agradeci por ele ter vindo ao Brasil, ter conhecido a obá e ter formado a nossa família, depois de tantas dificuldades. Agradeci pelas histórias que ele me contou, que foram muito importantes para saber quem eu sou, de onde vim e o que eu quero ser. Prometi que um dia eu vou escrever um livro sobre a Batalha de Okinawa e dedicar a ele, que sempre me falou sobre o assunto sob a perspectiva inocente de uma criança.

Semana passada, foi realizado o Ofício Religioso em Memória aos Pioneiros e seus Descendentes Falecidos, celebrado pela Monja Coen, na Associação Okinawa Kenjin do Brasil. Esse ano, a Monja falou sobre a resiliência e a capacidade do imigrante de superar as adversidades – como a ameixeira, que perde suas folhas, parece seca, mas logo nos surpreende com uma bela flor. Assim também o imigrante muitas vezes perdeu o chão, mas conseguiu se reerguer, e estamos aí, na 5ª, 6ª geração. E foram tantas e tantas dificuldades – a guerra, a imigração, a pobreza, a adaptação a um país estranho.

Acredito que algumas dificuldades foram comuns a todas as famílias de imigrantes. Mas cada uma também teve suas particularidades. Nem a história do chiclete e nem a trajetória do meu oji constam nos livros de história da imigração. Já se completaram 109 anos da Imigração Japonesa no Brasil e é cada vez menor o número de isseis (1ª geração). A cada imigrante que morre, quantas histórias não são perdidas? Agora que meu oji, o único imigrante não está mais aqui, nossos vínculos com Okinawa e com a história da nossa família ficam mais frouxos. Agora não verei mais o oji lendo jornal, mexendo em suas ferramentas ou comendo batata doce. Quando a morte vem, não há como escapar – o corpo vai e só se sobrevive através do abstrato – as histórias e as memórias. Por isso, de certa forma, o oji e a obá ainda estão aqui conosco e nos acompanharão em toda nossa trajetória.

oji e eu

Selfie de ano novo

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