O que é ser uma mulher uchinanchu?

Hoje o tempo está meio chato – aquele friozinho com garoa – e eu, tomando um chá para amenizar o início de gripe que veio junto com o ciclo menstrual. A vontade é de não escrever nada e ficar derrotada na cama, mas aquela voz lá dentro (o demônio ou o anjo?) diz: ano passado você escreveu 4 textos pro mês da mulher, se você não escrevesse quem ia escrever, todo mundo gostou, é um tema tão importante pra você, ah cadê a feminista agora, tem que falar mesmo, pra quê comprou tanto livro em Okinawa então.

É tudo muito confuso e estou sem foco nenhum. Vou escrever sem culpa nenhuma por não ter pesquisado, lido, traduzido textos, pois os textos mais acessados do blog foram aqueles que escrevi com o coração somente, unicamente baseada no que vi e ouvi.

dia da mulher_okinawana

O que é ser mulher e uchinanchu? Para mim, é qualquer mulher que seja okinawana ou descendente de okinawanos, simples assim – à primeira vista. Quando penso melhor, vem uma avalanche de cenas da minha vida.

Primeiro, que ser mulher é um problema. Ok, ser um ser humano é um problema em geral pois os hómi sofre muito também, mas ser mulher traz diversas dificuldades para nossa vida associadas exclusivamente ao nosso gênero, ao fato de ser mulher: conviver com o medo de ser agredida sexualmente (numa rua vazia ou num trem cheio), ter nossos corpos controlados pelo estado (aborto, nem mesmo em caso de estupro) e pelos olhos da sociedade em geral (homem pode ser peludo, mulher não) e receber menos que um colega que exerce a mesma função na empresa – só para citar alguns exemplos.

E ser uchinanchu? Ser descendente de okinawanos é muito bonito, muito legal, ô cultura maravilhosa, arquipélago de natureza exuberante, de gente acolhedora. Mas é difícil definir o que é, como é a mulher uchinanchu, não é? Pois ser uchinanchu é apenas uma de nossas características, assim como ser mulher – somos jovens, velhas, moramos em lugares diferentes, okinawanas nascidas em Okinawa ou brasileiras, argentinas, peruanas, somos de 1ª, 2ª, 3ª, 4ª geração, cis, trans, tristes, felizes, com muitos antepassados nascidos em Okinawa ou só um, orgulho da família ou ovelha negra, de áries ou de peixes, magras, gordas, yutás, católicas, evangélicas, bruxas, espíritas, sociólogas, arquitetas, comerciantes, empresárias, casadas, solteiras, viúvas, desempregadas, estudantes, com pele escura ou pele clara, peludas, não peludas, cabelo fino, grosso, liso, encaracolado, olhos grandes ou pequenos…

Se somos tão diversas, o que então poderia nos unir para falarmos de “mulher uchinanchu”? Muitos dizem que a mulher uchinanchu é forte, é teimosa, é quem manda de verdade em casa. Mas, na minha opinião o que define a mulher uchinanchu é o simples fato de termos nossas raízes em Okinawa, ou seja, nossas antepassadas vieram de lá. Não estou falando da conexão com as ilhas geograficamente em si, mas da conexão com nossa própria história, como mulher e como uchinanchu.

Para exemplificar, basta olhar para nossos corpos. Por quê eu tenho olhos e cabelos assim? Sou descendente de quem? E, ao olhar nossas casas e famílias? Por quê temos butsudan? Por quê comemos goyá e outras famílias não? De onde vieram meus antepassados?

Conhecer as coisas de Okinawa – história, cultura, línguas… – também faz parte do processo de conhecer a si mesma.

Para as imigrantes e suas descendentes, ser uchinanchu parece ser mais complexo. Conforme os anos e as gerações passam, a conexão com Okinawa vai ficando mais fraquinha. Okinawa faz parte do imaginário, já não sabemos muito bem a cidade onde nossas avós nasceram, como eram as casas delas e o que elas vendiam no mercado, por exemplo. E, nessa jornada de mudar de país, não podemos esquecer do papel fundamental que as imigrantes mulheres tiveram, quase sempre cumprindo dupla jornada: trabalho para ganhar dinheiro e trabalho doméstico.

Para entender a nós mesmas, é essencial lembrar de onde nós viemos. Isso faz parte do processo de compreender, aceitar, adorar nossos corpos, nossas feições, a nossa complexidade do ponto de vista étnico e cultural. Quem nunca teve crise de identidade, que atire a primeira pedra.

Creio que a questão de conhecer a própria história é essencial tanto para mulheres quanto para os homens, é claro. Mas, a diferença acontece na prática. Se formos procurar a história das mulheres uchinanchus, vamos encontrá-la?

A historiografia é especialista em silenciar as mulheres, no mundo todo. Elas sempre existiram, são metade da população mundial, mas os registros são escassos. Além disso, grande parte delas foi impedida de estudar ou de chegar aos lugares que a teriam feito conhecidas. Nos livros de “pessoas ilustres” de Okinawa, são pouquíssimas mulheres, dá para contar nos dedos de uma mão. No século XX, começou a ser estudada a história das mulheres de Ryukyu – por um homem (Iha Fuyu) – e hoje existem alguns livros sobre o tema.

No caso das imigrantes, vemos que o principal espaço institucional – as Associações Okinawa – tampouco deixou muito espaço a elas.  Na verdade, deixou sim – o espaço da cozinha e das artes. Mas não o das decisões. Nas associações (kaikans), as mulheres estão sempre ali presentes, mas muitas vezes com espaço delimitado – fazendo satá andagui, sobá, dançando Ryukyu Buyo – o que é muito digno, mas é limitante, especialmente se você não se encaixa em nenhuma dessas áreas ditas “femininas”.

okinawa sobá_1

Okinawa sobá

Hoje, faço parte da diretoria da Associação Okinawa Kenjin do Brasil e, felizmente, há muitas mulheres, ainda que nenhuma tenha chegado ao cargo de Presidente. Nas reuniões mensais, é curioso que os homens não se levantam para pegar seu próprio café ou chá e muito menos para oferecer para os demais. É sempre uma mulher (diretora, como todos os outros) que vai lá, pega a bandeja e serve todos os 30 a 40 membros da reunião.

Há muitas coisas mudando – hoje temos mulheres magníficas que estão assumindo cargos importantes na sociedade nikkei e uchinanchu. Lembro do relato de uma mulher que recebeu uma festa de homenagem ao assumir um cargo superimportante. No evento, as autoridades (quase todos homens) exaltaram o acontecimento com discursos mostrando uma verdadeira satisfação, um após outro. Porém, esqueceram do principal – de passar o microfone para ela, a homenageada, fazer seu próprio discurso.

São essas sutilezas que dão pistas de como o todo funciona – de onde é o lugar da mulher. Outro exemplo – este, nada sutil – do machismo existente aconteceu comigo, em um debate sobre o tema “tabus entre os uchinanchu”. Numa discussão acalorada sobre o papel da mulher na família, ouvi de um homem jovem as seguintes palavras: “sinto pena de você não querer ter filhos” – e discorreu sobre a dádiva que é ter um útero e que não utilizá-lo seria um desperdício como mulher. Na hora eu só me irritei, mas depois percebi o quanto essas palavras me atingiram, porque eu sempre fico lembrando delas com desgosto. Se eu não tiver filhos sou menos mulher? Tem gente que tem cérebro e não usa, e nem por isso fico comentando que é um desperdício não utilizar – seu corpo, suas regras.

Eu me acostumo mas não me conformo, e sinto dificuldade em fazer parte de um ambiente no qual ser mulher envolve alguns estereótipos. Porém, vejo que as coisas estão mudando, pois há várias mulheres assumindo cargos e fazendo coisas maravilhosas por aí, inclusive as da minha geração e que pertencem aos grupos de jovens.

Dessa forma, pode-se dizer que o lugar deixado às mulheres na história da imigração foi considerado menos importante e foi menos registrado que o dos homens, que ganharam biografias, homenagens e escreveram diversos textos nos livros institucionais. Às mulheres, restaram os Fujinkai (associação de senhoras) e seus informativos, e alguns outros registros. Há também um livro editado no Japão, “História das Mulheres na Imigração Okinawana”, que contém relatos de mulheres que imigraram para a América do Norte e Sul, sobre o qual falarei em outro post.

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1º Encontro de Funjinkai – evento organizado pelas mulheres para as mulheres (2017)

No âmbito familiar, a situação das mulheres também é complexa. Os sobrenomes da família e o butsudan passam através dos homens, enquanto as filhas mulheres vão para outra família. Quem não conhece uma família cujo filho mais velho é tratado como queridinho, aquele que vai perpetuar o legado e que vai receber toda a herança ou a maior parte dela?

Na minha família, vejo que na geração dos meus pais isso ainda aconteceu de certa forma, mas na minha geração isso aparentemente é bem mais fraco. Um dia meu irmão (mais novo) veio me zuar falando que ele é que ia herdar nossa casa, e meus pais falaram que a divisão seria meio a meio. Eu e meu irmão sempre dividimos as tarefas domésticas e sei que meus primos homens também aprenderam a cozinhar e a lavar louça. Mas, quando há festas em família, são as mulheres que vão para a cozinha lavar a louça enquanto os homens ficam na sala vendo TV. Mas agora que aparentemente cozinhar virou moda os homens também têm se aventurado bastante na cozinha que antes era dominada pela obá e suas comparsas.

Pois é, ser mulher e uchinanchu não é e nunca foi fácil. Os homens vão reclamar, vão dizer que você é exagerada, mas só quem é mulher sabe como é a vida de uma mulher e pode opinar com propriedade sobre o assunto. E por isso, devemos ir atrás da história das nossas avós e antepassadas para entendermos melhor de onde viemos.

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Família da minha obá

Pode parecer que não, mas muda nossa vida conhecer as mulheres que vieram antes de nós: obá que com menos de 20 anos transportava roupas num caminhãozinho durante a ocupação americana em Okinawa, a obá que cuidava da espiritualidade, a obá que tinha uma tatuagem nas mãos (hajichi), a obá que teve um caso com um cantor famoso de minyo, a obá que judiou da nora e se arrependeu só depois de ir pro além, a obá que deixou a família e os filhos para se casar com outro homem.

Foram elas que nos trouxeram até aqui, com seus defeitos, qualidades e complexidades. Aposto que elas só estavam vivendo a vida delas, sem pensar no que as descendentes pensariam. Mas, quando me sinto tão insignificante e limitada, é de certa forma confortante lembrar das coisas que elas fizeram. E quantas coisas elas construíram! – para o bem ou para o mal, elas mudaram os rumos da família tanto quanto os homens. Elas fazem parte da nossa história e têm importância no processo que é compreender melhor a nós mesmas (nossos corpos e identidades) e com isso, tirarmos forças para enfrentar as dificuldades, as barreiras, os preconceitos que se impõem a nós, mulheres, e para seguirmos em frente, assim como elas seguiram.

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3 comentários sobre “O que é ser uma mulher uchinanchu?

  1. Preciso agradecer por esse texto. .!!
    Li no dia, reli novamente, e estou compartilhando com meus pais seu texto! Me emocionou bastante..pois, passei por uma fase de ceises pessoais, e estou passando por um processo de recuperação começando pela busca da minha origens, meus antepasaados. Como moro no interior do Paraná, sempre foi muito complicado ter contato com kaikans ou descendente q se interesse pelo assunto.. mas a necessidade e angústia de fazer esse reconhecimento sempre esteve aqui no peito.Muito Obrigada pelo texto, se possível gostaríamos de saber o nome da autora. Att. Joyce M Teruya

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sempre com palavras tao certeiras!
    Que bom que voce venceu a sua preguica e nos deleitou com esse texto. Maravilhoso! Me identifico demais tudo que voce escreveu.
    As mulheres de Okinawa sao sim muito fortes, mas tb muito ligadas as tradicoes e por isso acabam “se apagando” em relacao aos homens, assumindo papeis nos bastidores.
    Minha oba com menos de 30 anos ficou viuva depois da guerra com 3 filhos para criar e ainda adotou a sobrinha que ficou orfa. Migrou para o Brasil para buscar melhores condicoes de vida. Perguntei para ela pq ela nunca quis se casar de novo, sendo tao jovem e bela. Ela me contou que houve propostas, mas que ela teria que largar os filhos do primeiro casamento e isso ela nao faria de jeito nenhum. admiro muito a minha oba e as mulheres que sabem a forca que tem.

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