28 de abril – o Dia da Humilhação em Okinawa

Em Okinawa, o dia 28 de abril é conhecido como “Kutsujoku no Hi” (屈辱の日) – termo que pode ser traduzido como “Dia da Humilhação” ou “Dia da Vergonha”. E qual poderia ter sido o tão ingrato acontecimento que deu esse nome à essa data?

Tudo começou com a Segunda Guerra Mundial, que trouxe a guerra para Okinawa, em 1945. Quando as tropas americanas chegaram em Yomitan, em 1º de abril de 1945, os Estados Unidos expediram a Proclamação Nimitz, suspendendo os poderes executivos do Japão Imperial sobre as ilhas do sudoeste e declarando-as ilhas sob jurisdição do Governo Militar americano.

A Batalha de Okinawa, que durou oficialmente de abril a junho, devastou o pequeno arquipélago (única batalha terrestre do Japão) causando a morte de cerca de 1/3 de sua população.

O Japão assinou sua rendição em setembro de 1945, após os ataques nucleares em Hiroshima e Nagasaki, e o país passou a ser ocupado pelos Estados Unidos – a primeira vez que a nação foi ocupada por um poder externo.

Em 1951, com a assinatura do Tratado de São Francisco, o Japão recuperou sua soberania e voltou a ser um estado independente. Entretanto, uma das condições, presente no Artigo 3, era que Okinawa e as ilhas Amami e Ogasawara ficassem totalmente sob o poder norte-americano. Foi um choque para Okinawa, que se viu discriminada e prejudicada com o pacto.

Trecho do Artigo 3:

(…) the United States will have the right to exercise all and any powers of administration, legislation and jurisdiction over the territory and inhabitants of these islands, including their territorial waters. (…)

Leia o texto completo aqui.

O Tratado entrou em vigor no dia 28 de abril de 1952, dia que ficou conhecido como “Kutsujoku no Hi”, ou “Dia da Humilhação”, pois além de oficializar a discriminação entre Japão e Okinawa, praticamente entregou Okinawa nas mãos dos norte-americanos para que o arquipélago obedecesse aos interesses dos EUA na Guerra Fria, com sua localização estratégica na Ásia. Isso aconteceu especialmente com a construção das bases militares, que na verdade já vinham sendo instaladas desde que o exército chegou em Okinawa. Assim, iniciou-se a administração civil em Okinawa, chamada de USCAR (United States Civil Administration of Ryukyus). Apesar de ser chamada de “administração civil”, na prática, os militares continuaram como autoridade máxima, que duraria até 1972, quando Okinawa foi devolvida ao Japão.

Atualmente, o 28 de abril é uma data em que cidadãos okinawanos protestam contra as bases militares e os problemas causados por elas, enfatizando que a presença norte-americana confirma o fato de que, décadas depois do término da guerra, Okinawa ainda sofre discriminação pelo governo central japonês.

Em 2018, o local escolhido para o protesto foi o portão do Camp Schwab, em Henoko (Nago). Sobre o Dia da Humilhação, a representante do evento, Tetsumi Takara, diz que “o nosso desejo foi ignorado”. E, sobre a construção da nova base em Henoko, que prevê o aterramento de uma grande área do mar da Baía de Oura, “o desejo de que não construam mais uma base militar também está sendo ignorado. Sem dúvida, a humilhação tem continuado nesses 70 anos”.

O dia 28 de abril de 2016 também foi o dia do desaparecimento da jovem Rina Shimabukuro, de 20 anos, na cidade de Uruma. Ela foi estuprada e morta pelo ex-fuzileiro naval Kenneth Franklin Shinzato, que foi condenado à prisão perpétua. O crime gerou indignação e protestos entre os okinawanos, que associam a presença das bases militares à recorrência de casos de violência sexual e acidentes.

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Multidão lota evento do “Dia da Humilhação”  em Ginowan (2013)

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Multidão lota evento do “Dia da Humilhação”  em Ginowan (2013)

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“NO OSPREY” – cartaz de protesto contra a aeronave Osprey (2013)

 

Fonte:
「基地の島コンパクト辞典」
https://ryukyushimpo.jp/editorial/entry-709840.html

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