Kasato Maru: o primeiro navio a trazer imigrantes japoneses

No dia 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru atracou no Porto de Santos. Desde então, a data ficou marcada na história como o dia em que se iniciou a imigração japonesa para o Brasil, sendo comemorada todos os anos com cerimônias, retrospectivas, festivais, inaugurações, reportagens e se tornou pretexto para falar de qualquer coisa relacionada aos japoneses no Brasil.

Entre todas as personagens lembradas nas histórias, o navio Kasato Maru é um dos nomes mais lembrados e sua imponente figura é uma das fotos mais utilizadas. Mas, você conhece a sua história?

Em 1900, veio ao mundo um navio chamado Potosí, fabricado por um estaleiro britânico com o objetivo de atender a linha entre Liverpool (Inglaterra) e Valparaíso (Chile). Possuía 122 metros de comprimento, largura de 15,24 metros, 5.971 toneladas de capacidade de carga e máquinas que permitiam atingir a velocidade de até 13 milhas marítimas por hora (24km/h). Além de compartimentos para carga, foram instaladas acomodações de segunda classe (para 200 passageiros) e de terceira classe (espaços coletivos para até 780 passageiros).

Porém, antes mesmo de atender o trajeto para o qual havia sido construído, o Potosí foi vendido para uma organização russa, que havia se interessado e feito uma proposta, aceita pelos ingleses. O navio foi modificado, sendo adaptado para o transporte de tropas (capacidade para dois mil homens), com equipamentos e instalações hospitalares.

Assim, ainda no ano de 1900, o Potosí se tornou o navio Kazan, passando a transportar cargas militares e tropas. O nome era uma homenagem à cidade de Cazã, capital do Tartaristão – localizada na região do Volga, na Rússia, é uma das cidades-sede da Copa do Mundo 2018.

Até que então, em 1904 começou a Guerra Russo-Japonesa, na qual os dois países disputaram os territórios da China e Manchúria. O navio Kazan ficou bloqueado em Port Arthur (conhecido como Lüshunkou, em chinês e Ryojun, em japonês) e se tornou um navio-hospital para atender os soldados feridos. Em 1905, após sofrer vários bombardeios dos japoneses, o Kazan naufragou. Porém, há aqueles que dizem que os próprios russos afundaram o navio, para que ele não fosse capturado pelos japoneses.

Como o mar era pouco profundo, os japoneses içaram o navio e o reformaram. Assim, nasceu o famigerado Kasato Maru – “Kazan” virou “Kasato” e acrescentou-se “Maru” – sufixo comum para nomes de navios em japonês. A serviço da Marinha do Japão, passou a trabalhar na repatriação das tropas que serviram na Manchúria. Depois, foi utilizado na inauguração de uma linha entre o Japão e a costa oeste da América do Sul, transportando emigrantes para o Havaí (1906) e Peru e México (1907).

Em 1908, o Kasato Maru foi o navio escolhido para trazer a primeira leva de imigrantes japoneses para o Brasil. No dia 28 de abril de 1908, no Porto de Kobe os 781 emigrantes embarcaram no Kasato Maru, rumo ao Brasil. Para os okinawanos, a viagem havia sido um pouco mais longa, pois haviam feito um trajeto do Porto de Naha até Kobe.

“Todos os emigrantes foram vacinados e inspecionados, e as suas bagagens desinfetadas antes de serem embarcadas. O vapor que os conduz é o ex-Kaiserin, antigo navio-hospital russo encontrado em Port Arthur pelos japoneses. A sua instalação pareceu-me higiênica.”

Alsino Santos Silva, cônsul dos Estados Unidos do Brasil em Yokohama

Do total de 781 imigrantes japoneses:

  • 325 (41,6%) eram da província de Okinawa
  • 597 eram homens (mais de 76%) e 184 eram mulheres
  • 19 eram crianças menores de 10 anos (7 menores de 2 anos)
  • o homem mais velho era Kikichi Kanagusuku, de 48 anos
  • a maioria eram adolescentes e jovens entre 20 e 30 anos

“Os homens de Ryukyu (Okinawa), de aspecto agradável, pareceram-me fortes e resistentes. A gente dessa parte do Japão é muito dada à agricultura, obediente e ativa, e estou certo que em São Paulo esses trabalhadores serão justamente apreciados. Falam uma espécie de patois e os próprios japoneses têm necessidade de intérprete para se entenderem com eles. Penso que no fim de uma ou duas colheitas V. Sa. poderá facilmente julgar da força e do caráter desses emigrantes.”

Alsino Santos Silva, cônsul dos Estados Unidos do Brasil em Yokohama

O navio fez escala no porto de Singapura e rumou pela costa africana, aportando na Cidade do Cabo e atravessando o vasto Oceano Atlântico. Eram servidas três refeições diárias de arroz, sopa, peixe seco e conservas e durante a viagem havia uma série de atividades como aulas de português, gincanas, apresentações artísticas.

No dia 18 de junho de 1908, após 51 dias de viagem, finalmente o Kasato Maru chegou ao Porto de Santos. Dizem que como era época de festas juninas, havia fogos de artifício, que os imigrantes pensaram que haviam sido preparados para sua chegada.

“Contemplando comovidos o espetáculo os imigrantes tiveram a ilusão de que o povo brasileiro lhes estava dando as boas-vindas.”

Teijiro Suzuki

O desembarque só aconteceu no dia seguinte. Portando bandeirinhas do Brasil e do Japão e vestidos com trajes ocidentais, os japoneses causaram boa impressão nos brasileiros, que os consideraram um povo organizado e asseado.

“Foram os próprios immigrantes que compraram as suas roupas, adquiridas com seu dinheiro, e só trouxeram roupa limpa, nova, causando uma impressão agradável. As mulheres calçavam luvas brancas de algodão.”

Jornal Correio Paulistano

De Santos, os imigrantes logo embarcaram em um trem para a Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás (São Paulo). A partir do dia 27 de junho, foram levados a seu destino: seis fazendas de café situadas ao longo da Estrada de Ferro Mogiana, no Estado de São Paulo.

Com a abolição do trabalho escravo, o Brasil introduziu imigrantes para substituir a mão-de-obra nas lavouras. Os primeiros imigrantes japoneses tinham como destino fazendas cafeeiras do estado de São Paulo. Entretanto, as condições eram totalmente diferentes do que esperavam os trabalhadores, que esperavam enriquecer rapidamente para retornar a sua terra natal. Assim, um ano depois (1909), somente 11% dos imigrantes ainda permaneciam nas fazendas – os demais haviam fugido antes do término do contrato, procurando outras atividades, como a construção da Estrada de Ferro  Noroeste e Santos-Juquiá, e o cultivo de arroz e banana. Vários se mudaram para a Argentina e outros estados, como o Mato Grosso do Sul.

Os pioneiros não encontraram as condições que esperavam no Brasil. Mesmo assim, após a primeira leva do Kasato Maru em 1908 até a última em 1973, diversos navios trariam imigrantes japoneses para o Brasil – cerca de 200 mil pessoas, que se tornaram a chamada comunidade nikkei de 1,5 milhão de pessoas.

Após trazer os primeiros imigrantes, no dia 25 de junho o Kasato Maru deixou o Porto de Santos carregado de mercadorias e retornou ao Japão, sendo devolvido à Marinha japonesa. Foi adquirido pela Companhia de Navegação de Osaka, que o reformou tornando-o mais veloz. Uma nova linha entre o Japão e a costa leste da América do Sul (via Oceano Índico) foi inaugurada, com uma viagem do Kasato Maru. Em 1917, pela segunda e última vez, o navio aportou no Brasil (RJ), no trajeto entre Kobe e Buenos Aires.

Em 1922 foi a última vez que transportou imigrantes para o Havaí. Navios a vapor mais velozes estavam substituindo os mais antigos. Em 1930, foi vendido e transformado em um navio de pesca de sardinhas e caranguejos. Em 1942, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o navio foi confiscado pelo governo japonês para atividades militares, até que em 9 de agosto de 1945 sofreu bombardeios da Rússia e afundou nas águas geladas do Mar de Bering.

Assim, curiosamente um navio de origem inglesa passou de navio russo afundado pelos japoneses a um navio japonês afundado pelos russos. Apesar de estar descansando no fundo do mar, o nome do navio Kasato Maru e sua imagem aportando em Santos estão arraigados na história da imigração japonesa e okinawana e na história do Brasil, como o navio que deu origem a um movimento que mudaria a constituição da sociedade brasileira e o destino de muitas pessoas.

Recentemente (2016), foram divulgadas notícias de que membros da Sociedade Geográfica Russa mergulhariam para resgatar partes do Kasato Maru, como âncoras, e que os objetos seriam expostos em museus na Rússia e no Brasil, devido a sua importância histórica e cultural. Porém, infelizmente, desde então não tivemos mais notícias sobre a iniciativa e seus resultados.

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