Versos bonitos para os infelizes

Este post é somente para quem sente que a vitória do Bolsonaro representa um retrocesso. Que se sentiu triste por tanta gente (incluindo parte da sua família) ter mostrado um lado perverso. Que não entende como imigrantes e descendentes podem ter tanta falta de empatia com minorias. Que ficou abismada com a falta de bom senso de várias pessoas por aí acreditando em fake news como a mamadeira de piroca.

Quando lemos as notícias sobre denúncias e prenúncios de cagadas bate o desgosto, a infelicidade, a revolta. Mas o fato é que não tem jeito, ele venceu e nos próximos 4 anos não resta alternativa a não ser nos tornarmos a oposição firme, esclarecida, atuante e atenta a qualquer retrocesso.

É difícil, pois já temos um trilhão de problemas pessoais nas nossas costas: estudo, trabalho (ou a falta dele), relações pessoais, saúde mental. Por isso, vou apresentar aqui uns versos bonitos que podem te ajudar a se fortalecer daqui pra frente.

A solidariedade e a união vêm da dor – 2 exemplos poéticos

1. Extinção do Reino de Ryukyu e o “Nuchi du Takara”

Em 1879 aconteceu um dos episódios mais traumáticos para a história do uchinaanchu – a extinção do Reino de Ryukyu pelo Governo Meiji. O rei foi deposto e o Reino foi anexado ao Japão, dando origem à província de Okinawa. A partir daí começou um processo de japonização – foram proibidos vários costumes de Ryukyu, como a hajichi (tatuagem nas mulheres), as línguas e os rituais religiosos. O último rei, Sho Tai, antes de ser levado para o Japão, recitou um ryuka (poesia de Ryukyu, com 4 versos e métrica 8-8-8-6) que é muito famoso ainda hoje:

戦世ん済まち 弥勒世んやがてぃ

嘆くなよ臣下 命どぅ宝

A guerra vai acabar

Logo virá a abundância

Não se lamentem

A vida é um tesouro

Ele tenta te trazer otimismo e a mensagem mais profunda é o último verso, “nuchi du takara”, geralmente traduzida como “a vida é um tesouro”, mas que pode ser interpretada como “no fim das contas, o seu bem mais precioso é a vida”. “Nuchi du takara” se tornou um lema pela paz e é utilizada para reforçar a ideia amplamente difundida de que o uchinanchu é um povo pacífico. Nos protestos contra as bases militares, ele sempre está lá.

2. Pós-guerra e Hiyamikachi Bushi

Algumas décadas depois (1945), Okinawa sofreu outro trauma ao ser palco da Segunda Guerra Mundial. A Batalha de Okinawa foi a única batalha terrestre no Japão, causando a morte de cerca de 1/3 da população da província. A era do pós-guerra começou nos campos de concentração (campos de refugiados) aos cuidados do exército dos EUA, que logo instituiu a ocupação do território, a reconstrução das ilhas e a instalação de bases militares.

Em meio a devastação e incertezas quanto ao futuro, Shinsuke Taira e Seihin Yamauchi compuseram a canção Hiyamikachi Bushi, visando animar os uchinanchus a seguirem em frente.

Hiyamikachi Bushi

名に立ちゅる沖縄宝島でむぬ 心うち合わち うたちみしょり
naa ni tachuru ‘uchinaa takarajima demunu kukuru ‘uchi’awachi ‘utachimishoori
名に立つ沖縄 宝島だから 心をひとつに合わせてお立ちください
A famosa Okinawa, ilha preciosa, num só coração – se levantem!

稲粟の稔り 弥勒世ぬ印 心うち合わち気張りみそり
‘ini’awa nu nauri mirukuyuu nu shirushi kukuru ‘uchi’aachi chibai mishoori
O arrozal vai crescer, sinais de boa colheita, num só coração – se animem!

がくやないしゅらさ花や咲き美らさ 我した此ぬ沖縄世界に知らさ
gaku ya nai shuuraasa hana ya sachijurasa washita kunu ‘uchinaa sikee ni shirasa
A música toca doce, a flor desabrocha bela, nossa Okinawa ao mundo vamos mostrar!

我や虎でむぬ羽着けてたぼり 波路パシフィック渡てなびら
wan ya tura demunu hanichikithi tabori namji pashifiku watati nabira
Sou um tigre, coloque asas e vamos atravessar o Pacífico!

七転び転でひやみかち起きり 我したこの沖縄世界に知らさ
nanakurubi kurubi hiyamikachi ‘ukiri washita kunu ‘uchinaa sikee ni sirasa
Se cair 7 vezes, grite “ei” e levante, nós vamos mostrar nossa Okinawa ao mundo!

Esta música é muito lembrada na hora de animar o público num show ou festa e existem várias versões dela. Acho surpreendente o nível de otimismo contido nesses versos e até na melodia, considerando que muitas pessoas haviam perdido tudo na guerra, de bens materiais até pessoas amadas.

Foram os nossos antepassados que estiveram lá e sobreviveram a esses traumas. A história de Okinawa, com seus eventos trágicos, nos trouxe até aqui. Diz-se que o uchinaanchu é um povo unido e solidário, apesar de todas as dificuldades que enfrentou. Ou podemos dizer que são um povo unido e solidário por causa de todas essas dificuldades. Além disso, nós que estamos aqui no Brasil somos fruto de outro processo um tanto desafiador – a imigração.

Entretanto, às vezes também dá vontade de dizer que o uchinanchu não é nada disso coisa nenhuma – pois vieram à tona uns uchinazis neste ano dizendo que bandido bom é bandido morto e direitos humanos para humanos direitos.

É triste ver que famílias que passaram por tantas dificuldades tenham tão pouca empatia (ou que tenham empatia seletiva, excluindo negros, indígenas, refugiados, LGBTs ou qualquer um que seja visto como o “outro” –  o diferente). O fato é que somos todos seres humanos imperfeitos, fruto de nossa época e de nossas vivências. E só aprenderemos e evoluiremos ao viver, sofrer e estudar.

E é bem provável que o infortúnio chegue a todas nós. Não desejo o mal nem o caos, mas já estamos vendo retrocessos. Apesar dos privilégios de pertencer a uma classe média, não somos latifundiários e nem banqueiros, e por isso estamos do lado mais fraco.

Após conversar com uma amiga, deixei de lado a ideia de que a revolução feminazi-abortista-esquerdopata seria a prioridade. Também deixarei de ficar por aí gastando saliva e paciência ao discutir sobre política quando não vale a pena. É claro que seremos a oposição e estaremos atentas, mas o que quero dizer é que talvez seja um momento de nos unir e nos fortalecer, pois foi assim que os uchinaanchu saíram da pior.

Em outras palavras, vamos nos dedicar às micropolíticas. Vamos estudar, trabalhar, viver. Vamos atuar em nosso cotidiano, vamos conversar, trocar ideias, conhecer coisas novas, participar de discussões, organizar eventos. Vamos nos dedicar ao auto-conhecimento espiritual, à nossa saúde mental, ao que é importante para nós.

Vamos estudar nossa história e descobrir de onde viemos. Podemos resgatar a trajetória de nossos antepassados para tirarmos aprendizados – de suas imperfeições, seus erros, seus ensinamentos. Enfrentar o governo PSL não deve ser pior do que passar pela Segunda Guerra Mundial. Não negue suas raízes. Uchinanchus são fortes. Mulheres uchinanchus são fortes pra caralho. Vamos mostrar nossa Okinawa ao mundo.

Lembre-se de que a resistência é feita no cotidiano. Não carregue o mundo em suas costas. Não perca tempo discutindo com pessoas que desprezam suas ideias e sua formação. Ampare-se em quem te valoriza, te entende e te faz bem. Cuide-se para sobreviver, o que é mais importante – afinal, a vida é um tesouro.

Um dia a guerra vai acabar, logo virá a abundância. E quando esse dia chegar… Ninguém vai conseguir segurar todas essas pessoas ligadas fortemente ao espírito democrático e humanitário, unidas e saudáveis e com a maioria no Legislativo.

Ii soogwachi deebiru! Feliz Ano Novo!

Fonte:
https://awamori-street.net/wppostplus/plg_WpPostPlus_post.php?postid=410

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