A Imigração Okinawana nas palavras das mulheres

No dia 18 de junho de 1908 o navio Kasato Maru chegou ao Brasil, dando início à longa história dos imigrantes okinawanos e japoneses no país. Dos 781 imigrantes, 325 eram okinawanos, e desses, somente 49 eram mulheres. Nos livros e relatos, a história oficial é masculina – os rostos, as lideranças e as conquistas. Porém, é indiscutível que as mulheres também estavam lá.

Aqui, vamos apresentar trechos de relatos feitos pelas pioneiras da imigração para o Brasil, retirados do livro “História das Mulheres na Imigração de Okinawa” (沖縄移民女性史), publicado em comemoração aos 30 anos de fundação da “Liga de Senhoras da Província de Okinawa”. Escrito nos anos 70, reúne depoimentos de mulheres que imigraram para o Brasil, Argentina, Peru, Bolívia e Havaí, a maioria delas descrevendo a imigração no período anterior à guerra.

mulheres okinawanas - fujinkai

Liga das Mulheres de Okinawa

No início do século XX, Okinawa havia acabado de se tornar uma província japonesa e vivia num estado de extrema pobreza. A imigração era uma opção atrativa para muitas famílias – sedutora até demais. Tsuru Odo relata que em 1914 havia muitas propagandas incitando a imigração para o Brasil, informando que dormiriam em camas limpas e macias, comeriam frangos inteiros e teriam uma vida dos sonhos. Acreditando que teria tudo a seu dispor, ela distribuiu seus pertences a imigrantes que estavam a caminho da Argentina. 

Viver em um outro país era um grande acontecimento, mas a longa viagem de navio era o primeiro e memorável passo dessa jornada. Saindo de Naha, os imigrantes iam para Kobe e depois atravessavam o oceano para as Américas, levando mais de 50 dias até chegar ao seu destino. Quando se passava pela linha do Equador, havia uma comemoração, com música e gincanas (undokai). Yasu Miyahira conta que a viagem foi difícil: “Tinha hora que fazia calor, tinha hora que fazia frio”, e que o único momento divertido foi na competição, na qual ganhou o 1º lugar. 

Sue Arashiro também se divertiu na viagem. Ela conta que um dia antes de atracar em Santos estava conversando com 5 conterrâneas na língua de Okinawa. Dois rapazes se aproximaram e perguntaram: “Escutamos e não entendemos nada, de que país é a língua que as senhoras estão falando?” De brincadeira, ela disse: “Nós moramos 10 anos no Brasil e somos fluentes no burajiru-go (‘brasileiro’). Nós voltamos pra visitar o Japão. Se quiserem aprender o burajiru-go, peguem caderno e lápis.” E continuou com a brincadeira: “Café da manhã é asamunu, almoço é ashii, jantar é fii (…), pai é suu ou chaccha, mãe é anmaa, irmão é miimii, irmã é maamaa…” Até que tocou o sino do jantar e encerrou sua “aula”. Recordando desse dia, a sra. Sue diz que nunca mais encontrou esses rapazes, mas com certeza vivendo em alguma plantação eles devem ter pensado que “aquela senhora gostava muito de piadas, de onde será que é a língua que ela nos ensinou?”

A chegada no Porto de Santos era repleta de emoções pelo reencontro com o marido ou, no caso de muitas, do primeiro encontro com ele. Muitas se casavam no papel sem nem conhecer o cônjuge e viajavam para começar uma nova vida como imigrante e também uma nova família. Kamado Teruya conta que só conhecia o marido por foto e que quando chegou ao Brasil ficou insegura se conseguiria de fato encontrá-lo. Quando começou a ficar desesperada, uma voz chamou “Teruya Kamadoo” e um homem veio em sua direção. “Fiquei aliviada quando vi que era o homem que se tornaria meu marido, olhei-o pela primeira vez e vi que tinha a pele branca, mas era mais baixo que eu”.

A adaptação à nova terra era difícil. Mitiko Yabiku, que veio com seus pais em 1929, relata que ficou trancada em casa durante 4 meses e chorou durante 3 anos. Teve seus sonhos destruídos, não tinha amigos e detestava os borrachudos.

Nem sempre o trabalho era rentável e era muito comum que as famílias mudassem de fazenda (da cultura de café para a de algodão, por exemplo), de cidade (do interior para a cidade) e de trabalho (da plantação para um comércio). Kamado Teruya conta que vendia verduras, mas que ganhava pouco dinheiro e a mercadoria era pesada. Procurou algo mais leve e então começou a vender chapéu de palha na praia. Trabalhando com verduras e chapeus, conseguiu sustentar seus 7 filhos sozinha após a morte prematura de seu marido.

Cinco dias após chegar ao Brasil, Yoshi Miyagi foi colocada para trabalhar sozinha na loja do marido em Santos. Ficava triste por não falar português e nervosa quando o telefone tocava e tentava se comunicar: “bom dia, sim, não”. Esforçou-se para aprender a língua, teve 5 filhos e fez de Santos sua segunda terra, encontrando alegria. Porém, logo veio a Segunda Guerra Mundial. Japoneses, italianos e alemães que viviam a 80 km do litoral foram obrigados a evacuar a área em apenas 24 horas. Como aconteceu com vários imigrantes do pré-guerra, tiveram que se desfazer às pressas do patrimônio que haviam construído. Com a roupa do corpo, partiram para São Paulo e depois para uma fazenda no Paraná.

Começou uma vigilância maior nas atividades dos japoneses. Yasu Miyahira conta que não se podia usar o idioma, nem enviar cartas. Certo dia, seu marido foi para a cidade e foi preso, ficando detido por 2, 3 dias. Além disso, a guerra afetou também o suprimento de mantimentos, inclusive nas áreas mais longínquas. Faltava itens como sal e gasolina, e os ônibus pararam de passar perto de sua casa, que ficava bem afastada da cidade.

Quando o Japão perdeu a guerra, as informações eram confusas. Um dia, Shizu Kinjo viu seu filho chegar com uma expressão alterada, dizendo que o Japão havia perdido a guerra. Ela disse: “Não é possível, todo mundo está dizendo que venceu, que venceu, não é?”. O filho respondeu, incisivo: “Não, perdeu. Eu ouvi de brasileiros. Por isso, mãe, se eu não entrar na escola, as coisas vão ficar difíceis.” E assim, o filho decidiu ficar no Brasil e estudar, tornando-se dentista. Escolheu a área da saúde, pois o pai havia morrido cedo – se houvesse algum médico em casa, poderia ter sido salvo.

Outra grande dificuldade relatada pelas mulheres era a hora do parto. Tsuru Odo lembra as palavras de uma veterana, Kame Oshiro, quando perguntou como se fazia para chamar a parteira: Chiruu hyaa,  kumankai sanba nu innaa, jibun de umuyo no sa – “aqui não tem parteira, você tem que parir sozinha!”. Quando teve o filho, os vizinhos vieram somente dois dias ajudá-la com os afazeres domésticos. O marido preparava água e comida antes de sair para a plantação. Ela chorou de tristeza, pois sabia que em Okinawa uma gestante era tratada com muita importância. Quando chegava o mês do parto, as mulheres da família vinham ajudar.

Entretanto, o nascimento de um filho também era um bom pretexto para reunir família e amigos em festas que duravam a noite inteira. Yoshiko Hanashiro fala sobre essas comemorações. A família ia de cavalo, carregada de coisas. Mesmo que fosse na casa de um vizinho, a distância era longa e a visita demorava dois dias. A comida era farta nessas ocasiões: matava-se um porco inteiro e servia-se mortadela, palmito e sataa andagi (bolinho de chuva), além, é claro, da pinga.

Ao mesmo tempo, a morte de um filho significava uma grande dor. Nobu Minei perdeu seu filho no navio, a caminho do Brasil. Ele adoeceu repentinamente quando estavam perto da África e não resistiu. Foi jogado no mar. Ela conta que ficou em estado de choque e não se recorda como chegou à fazenda. Começou a trabalhar arduamente na lavoura de café, mas após 10 anos estava esgotada e não havia conseguido engravidar novamente, separando-se do marido. Depois disso, conheceu o seu segundo marido, que tinha 3 filhos e cuja esposa havia falecido. Adotando uma nova família, recomeçou sua vida e milagrosamente engravidou e teve mais 2 filhos.  

Yasu Miyahira perdeu duas filhas, de 17 e de 4 anos. Jurou que ia se dedicar ao máximo para que seus outros 4 filhos conquistassem uma posição de destaque na sociedade. A educação dos filhos era tema central nas famílias. Grande parte dos relatos mostram o esforço em fazer com que os filhos estudassem em escolas brasileiras, inclusive até o ensino superior.

Hana Yamashiro enviava seus filhos de carroça para a escola, que ficava a 6 km de distância, e conseguiu que todos fossem para a universidade. Sue Miyagi lembra de seus dias vendendo verduras e batalhando para que seus filhos frequentassem a escola, apesar do mais velho não gostar de estudar. No fim, os 3 se tornaram jornalistas.

Todos os relatos terminam descrevendo a tranquilidade depois dos primeiros tempos no Brasil – a estabilidade financeira, as viagens de passeio à uma nova Okinawa, reconstruída rapidamente após a guerra, o envolvimento com as associações (kenjinkai, fujinkai e outras). Os filhos se formaram, a família cresceu com a chegada dos netos. Yoshi Miyagi lembra dos dias de pobreza e trabalho duro. Seu marido faleceu, mas ela conta que superou a tristeza acompanhando o crescimento de seus netos. Seus filhos se casaram com brasileiros, então ela vê seus netos de olhos azuis e cabelos loiros, brincando alegremente. Viver para sempre no Brasil não estava nos sonhos de Yoshi e nem de outras mulheres. Porém, como diz ela, a vida é como um rio – cuja correnteza é profunda, atravessa dores e sofrimentos, mas no final sempre acaba encontrando a serenidade de águas tranquilas. 

Fonte:

「沖縄移民女性史」沖縄県婦人連合会編

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