“Mulheres de conforto” – Morre aos 96 anos a vítima e ativista Jan Ruff O’Herne

Esta semana, Jan Ruff O’Herne faleceu aos 96 anos, em Adelaide (Australia). De família de origem holandesa, ela vivia na Indonésia quando a região foi ocupada pelo Japão. Ela ficou conhecida por revelar em 1992 que havia sido vítima de estupro pelo o exército japonês. Em 1994 publicou uma biografia e divulgou sua história visando buscar justiça para as vítimas e proteger direitos das mulheres em situação de guerra.

Este post não é sobre Okinawa, mas questões de gênero e “mulheres de conforto” são temas de interesse nosso (leia o post “Mulheres de conforto” em Okinawa). Além disso, eu já tinha uma tradução pronta de um depoimento da Jan Ruff O’Herne, que fiz para um trabalho do curso de japonês, então vou postá-lo aqui:

Jan Ruff O’Herne

Nascida em Java, Indonésia, em 1923

Nunca conseguirei perdoar

este crime.

Adolescência feliz e próspera com os pais amorosos

Como a terceira de cinco filhos, cresci na plantation do engenho de açúcar de Cepiring, nos subúrbios de Semarang, Indonésia, que era colônia holandesa na época. Casa bonita, móveis de bom gosto, muitos empregados. Meu pai, católico devoto, me ensinou a força da fé e a fazer orações profundas, e tive uma adolescência livre em meio à natureza exuberante dos trópicos. Quando criança, tive uma educação católica e queria ser freira.

Rumo ao 6º Campo de concentração de Ambarawa

Em 1º de março de 1942, o exército japonês invadiu Java e no dia 8 de março o exército holandês se rendeu. Naquela época, eu tinha 19 anos e cursava o último ano da Faculdade para Professores da Ordem dos Franciscanos. Logo após a ocupação do exército japonês, os holandeses foram colocados num campo de detenção japonês. Lá era um antigo quartel e não era um local onde pessoas pudessem viver. O chão estava cheio de ratos, piolhos, percevejos de cama. O telhado tinha goteiras, eram péssimas condições sanitárias. Muitas mulheres e crianças morreram de fome, malária, disenteria, entre outras doenças. Não havia remédios e nem como fugir, foram três anos de muito sofrimento.

Confinamento na “Casa dos Sete Mares”, estação de conforto de Semarang

Em fevereiro de 1944, chegou ao campo de detenção para mulheres e crianças em que eu estava um carro trazendo oficiais do exército japonês. Num espaço aberto, enfileiraram as mulheres de 17 a 28 anos e escolheram aquelas que seriam feitas “mulheres de conforto”. Incluindo eu, 16 moças foram escolhidas, colocadas à força em um caminhão e levadas a uma casa em Semarang. O entorno dessa casa, chamada de “Casa dos Sete Mares” era cercado por arame farpado, não sendo possível fugir.

Aterrorizadas e tremendo, ficamos juntas e rezamos, mas fomos levadas para um quarto. Escondi-me embaixo a mesa, mas fui puxada e, com uma espada militar apontada para mim, fui estuprada. Naquela noite, quantas vezes fui estuprada…? Eu nunca vou esquecer essa primeira noite. Nós ficamos juntas e choramos em voz alta. A partir do dia seguinte, os soldados japoneses começaram a fazer fila.

Chamadas de “prostitutas dos japoneses”

Cerca de dois meses depois a estação de conforto foi fechada repentinamente e fomos enviadas ao campo de detenção de Bogor, mas os japoneses nos proibiram de falar sobre os acontecimentos na estação de conforto, ameaçando nos matar juntamente com nossa família. Como não tivemos outra escolha senão manter o silêncio, fomos chamadas de “prostitutas dos japoneses” pelas outras pessoas, foi muito doloroso.

Em 1946 me casei com um inglês compreensivo e bondoso, Tom Ruff, mas abortei quatro vezes. Passei por uma grande cirurgia, e finalmente fui abençoada com o nascimento de duas filhas. Porém, revivendo as memórias do passado, mesmo com meu marido não conseguia ser feliz no sexo.

As “mulheres de conforto” sul-coreanas me deram a coragem de falar

Durante 50 anos, eu não consegui falar sobre essa terrível lembrança. Porém, um dia, vi na televisão que “mulheres de conforto” sul-coreanas quebraram o silêncio e se expuseram. Além disso, fiquei sabendo que as mulheres bósnias foram estupradas durante o conflito na antiga Iugoslávia, e vi que minha experiência não era um mero acontecimento de 50 anos atrás. Na guerra, a mulher se torna a vítima. Vi que havia chegado a minha hora de quebrar o silêncio e resolvi contar minha história.

mulheres de conforto_jan ruff o'herne_

Foto: The Sidney Morning Herald. David Mariuz.

Fonte:

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